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quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Dando uma de Adélia Prado, só que não


Não lembro da primeira vez em que li "Com licença poética", mas, desde então, me apaixonei perdidamente por paráfrases. Foi tanta paixão que resolvi fazer as minhas próprias.

Essa paráfrase do "Poema de sete faces" foi publicada em 27 de junho de 2012 . Fiz uma adaptação no fim.

Quando eu nasci, um anjo louco,
desses que voam à esmo,
disse: Vai, garota! ser contradição na vida...

O teto desmorona sobre as cabeças
que dirigem corpos vagos.
A tarde se torna certeza cinza
esmagando quaisquer desejos...

O ônibus passa cheio de corpos.
Corpos cansados, sadios ou velhos.
'Pra quê tanto corpo, meu Deus?' pergunta a consciência,
mas meu coração,
este teima e não sente mais o discurso...

A mulher atrás da maquiagem
é triste, introspectiva e fraca,
mas conversa alegre.
Diz ter muitos, muitos amigos.
A mulher atrás da maquiagem e em cima do salto.

Meus Deus, por que não me abandona
se sabe que não sou forte,
se sabe que sou falsa...

Rima rima eterna rima
se eu me chamasse Valentina
seria só poesia e não conclusão.
Rima rima eterna rima
mais eterna é minha canção...

Eu não devia escrever isso,
mas encostar a cabeça no ônibus
e ouvir 'Return to innocence'
me deixa como Vicky no auge de sua emoção...

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Drummondiando a flor


Sou daquelas pessoas desligadas. Para quem me conhece, essa minha declaração logo resulta na seguinte pergunta: por que, então, jornalismo? Mas não vamos enveredar por esse caminho neste post; atenha-se ao fato de eu ser deligada, ok?

Coisas passam totalmente despercebidas para mim e, em consequência disso, eu levanto questionamentos desnecessários muitas vezes. Como, por exemplo, a vez em que eu andei mais de 1000 números numa avenida para chegar na faculdade e, só então, um ser iluminado me esclarecer que havia acabado a luz. O diálogo foi mais ou menos assim: 

—  Acabou a luz na região, você percebeu? —  não havia ironia na pergunta, garanto.
—  Sério? — minha resposta/pergunta usual para demonstrar espanto
—  Cê não viu os semáforos sem funcionar? 
—  Aaaahh! Por isso estava aquela bagunça toda no trânsito. —  respondo com entonação de quem constatou algo.

Esse é só um exemplinho bobo, mas, confesso, revela muito sobre minha personalidade. A questão é que eu caminho olhando tão para dentro de mim, dos meus pensamentos, que me desligo do mundo. E, sim, isso já me rendeu assaltos (do verbo roubar, no sentido de eu ser a pessoa roubada na história).

Logo, devido a minha leseira, vocês devem concluir o tempo que levou para eu me dar conta de que uma flor crescia no meu quintal asfaltado/cimentado. E, lógico, o quanto eu fiquei intrigada por constatar esse cenário drummondiano praticamente debaixo do meu varal.

O mais bizarro é que toda essa conotação de esperança que envolve a flor faz total sentido no estágio atual da minha. Por que, então, não dar à flor a importância que ela merece? Gente, uma flor nasceu no meu quintal! E não foi em um lugar reservado para flores crescerem, não. Foi tipo uma intrusão que palavra horrível mesmo. 

Não sei se uma flor nasceu no seu também e você, simplesmente, deu de ombros. Acontece que não sei priorizar e isso é notícia no meu mundo. Acontece também que acho minha flor lindíssima. Meio desengonçada, mas linda. 

Não sei quanto tempo ela vai durar ali, mas gostaria que fosse eterna, pequena e destemida. Gostaria que fosse eternamente essa flor, sem jamais mudar. E meu dei conta das pretensões que tenho para essa flor enquanto a observava esta semana. Drummond dedicou um poema a sua flor. Eu dedico esse post a minha.

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Drummondeando as faces...


Quando eu nasci, um anjo louco,
desses que voam à esmo,
disse: Vai, garota! ser contradição na vida...

O teto desmorona sobre as cabeças
que dirigem corpos vagos.
A tarde se torna certeza cinza
esmagando quaisquer desejos...

O ônibus passa cheio de corpos.
Corpos cansados, sadios ou velhos.
'Pra quê tanto corpo, meu Deus' pergunta a consciência,
mas meu coração,
este teima e não sente mais o discurso...

A mulher atrás da maquiagem
é triste, introspectiva e fraca,
mas conversa alegre.
Diz ter muitos, muitos amigos.
A mulher atrás da maquiagem e em cima do salto.

Meus Deus, por que não me abandona
se sabe que não sou forte,
se sabe que sou falsa...

Rima rima eterna rima
se eu me chamasse Valentina
seria só poesia e não conclusão.
Rima rima eterna rima
mais eterna é minha canção...

Eu não devia escrever isso,
mas encostar a cabeça no ônibus
ouvindo 'Return to innocence'
me deixa como um homem no auge de sua emoção...