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sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Crônica de quinta sobre um término hipotético


Foi inevitável: eles terminaram. Ela saiu da casa deixando os móveis, a coleção de xícaras de café e os sentimentos, todos empoeirados. Era seu dia de fazer faxina na casa, mas isso não importava mais. Ele ficou na sala mais chateado por ter que dar um jeito naquela bagunça do que na própria vida.

Ela virou a esquina, rumo ao ponto. O ônibus já estava vindo, ela havia checado no aplicativo quando estava no banheiro fazendo hora pra sair de vez da sua recente vida antiga.

Ele levantou da cadeira em que estivera sentando olhando um lixo feito de papel velho e pó empurrados para debaixo da estante de livros. "Inacreditável", disse. Havia visto ela empurrar o lixo ali pra baixo há 2 semanas, por isso, no seu dia de fazer faxina, ele ignorou. "Inacreditável!", disse novamente, agora balançando a cabeça em negativa. Até isso ela achava que era responsabilidade dele: o lixo que ela mesma esconde debaixo da estante. Definitivamente era o fim.

Ela subiu no ônibus menos de 5 minutos depois de sair de casa. Reparou que sua blusa tinha a mesma mancha que ela havia pedido pra que ele esfregasse com  um pouco mais de vigor na semana passada, no dia dele de ajeitar as coisas. Pelo visto, não havia feito. Agora, além de sair de casa, ela tinha que andar esculhambada pela rua, como quem não tem coragem de lavar a própria roupa com decência. Era o fim, estava claro.

E por conta desses detalhes, que em situações assim são verdadeiros desaforos, eles não se falaram mais. Um não ligou pro outro, nem mandaram mensagens pelo WhatsApp. Deixaram de se seguir nas redes sociais, mudaram o status de "em um relacionamento sério" para "solteiro" e seguiram suas vidas como quem tem muita coisa pra viver ainda pela frente. 

Ela desbloqueou o Instagram de vez e ele, idem. Quase três meses depois, o Instagram dela segue desbloqueado. Os dois começaram a usar a função Stories e cada um acompanha, a uma distância segura que é demarcada pelo término, a vida do outro. Ela começou a postar pequenos vídeos das coisas que via, mais para atualizá-lo sobre sua nova vida do que para jogar na cara dele que ela vivia  bem, obrigada.

Ele começou a postar vídeos com fundo musical das suas recentes descobertas no Spotify, coisa que antes não fazia, pois descobriam as músicas juntos. Mas isso foi antes desses três meses que se passaram, antes das brigas se intensificarem, antes do silêncio que se instalou, como se eles tivessem combinado de abrir o relacionamento e convidar a solidão. Foi em um antes que até parece ter sido em outra vida.

De nada adianta viver de passado, ela pensa com frequência. Mas, mesmo assim, não consegue deixar de clicar no círculo da foto de perfil dele no Instagram, não consegue deixar de acompanhar as descobertas musicais que ele faz. Virou ritual: antes de dormir, ela entra no perfil e vê vídeo a vídeo, sempre tomando cuidado de sair antes de terminar. Não quer que ele saiba que ela esteve ali, mesmo que haja dias em que bate aquela vontade de ver o vídeo até o fim.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Texto interrompido

Quando eu falo sobre o passado, tudo é preparado com cuidado: o discurso, o tom da fala, os sentimentos. Essa prévia, antes perceptível  a qualquer expectador mais atento, agora é disfarçada após anos de treino. E eu engano bem. 

Meu passado é algo domado em mim, mas não sem muita luta. Jacó e o anjo lutando madrugada adentro não chegam perto do que passei para controlar lembranças e ódios que foram tatuados na minha alma, assim como a sequência de dígitos que trago no pulso.

No entanto, há exceções. Quando me jogam lembranças abruptamente em meio a conversas banais, sou presa fácil. As palavras anteriormente domadas me pegam desarmada. Não sei lidar.

A verdade é que quando ensaio tenho tempo para me acostumar com o fato de que quem está ao meu redor sabe muito sobre mim. Sabe mais do que eu gostaria de contar. Mas quando sou pega de surpresa, me sinto envergonhada por um lado tão pessoal ser assim amplamente conhecido a ponto de ser abordado da maneira mais banal e rotineira.

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Imputabilidade

São 14h30. Cada componente essencial e indispensável do tribunal está no seu devido lugar, todos prontos a cumprir os respectivos papeis: o advogado de defesa repassa mentalmente a magnífica oratória, o juri apela para a moral e sentimento disfarçados de razão; o juiz influenciado pela opinião pública relembra artigos e ensaia sua face imparcial.

Pelo televisor as pessoas esperam ansiosas o resultado do julgamento. Carolas rezam pedindo a Deus que fiquem presos para sempre e se esquecem de que a maioridade penal é que foi reduzida e não a prisão perpétua implantada no país.

Os réus eram o que antes se classificaria como "dois menores": Di Menor, de 16 anos, e Letinho, de 17. O crime que cometeram não se ousa descrever ou citar aqui, as pessoas evitam pensar, mas a mídia escancarou o máximo que pôde com os detalhes mais sórdidos fruto das especulações diversas. Hoje, na frente de televisores de todo o país, há mães que deixaram de lançar olhares de amor ou repreensão às filhas de 5 anos para vidrarem os olhos vermelhos de lágrimas e ódio nas imagens repassadas - milhares de vezes desde o ocorrido - no aparelho.

A ansiedade de todas as carolas, de todas as mães de meninas de 5 anos e de toda a população que sente como humanos (e não como psicopatas) teve duração exata de dois dias.
Foram condenados: Di Menor a 53 anos e Leitinho a 89. Mas os olhos ainda estavam vermelhos de de choro, de ódio e de sangue. Parte da população vibrou com a sentença: o juiz correspondera às expectativas. Outra parte, no entanto, lamentava: "53 anos apenas para Di Menor?? Que ficasse 1.000 anos!!" mas nem assim seria o suficiente...

E o juiz recorda que outrora, na história da humanidade, as punições eram espetáculos públicos com decapitação ou leões devorando pessoas. As carolas dizem que foi pena branda aquela sentenciada a Di Menor.

O juiz pressente certa energia no ar, energia que vem de todo o país, e lamenta a aposentadoria que a sociedade atual concedera aos leões. "Nem assim se satisfaria o ódio que sentem". Mas no seu íntimo ele entende porque também tem uma filha de 5 anos.

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Instantes


Há dias em que coisas estão destinadas a acontecer. E você sabe antes que, de fato, aconteçam. Não se sabe o quê, nem como, a única certeza que se tem é de que está próximo e de que não há como evitar. Então, você espera. Você simplesmente espera e torce pra estar enganada.

Tudo começou com uma sensação esquisita, como uma espécie de arrepio percorrendo o corpo. Ela desceu a escada rolante pelo lado esquerdo enquanto olhava sem compreender o motivo das pessoas que insistiam em parar do outro lado. No dia seguinte, quando a pressa deu lugar ao cansaço nas pernas, ela entendeu. Naquele dia porém, sem encontrar resposta que justificasse tanta gente parada no lado direito bem em horário de pico, ela olhou com desdém para as pessoas e, depois, bem depois, se lembrou de que foi ali que vira a menininha pela primeira vez.

Quando estamos tão imersos na rotina, esquecemos de ver os detalhes, de dar lugar às sensações e aos avisos. Ela sentiu um frio esquisito e o que fez foi apenas puxar o casaco para mais perto de si. E descartou. 

Parou bem próxima a demarcação do local onde a porta deveria abrir. Enquanto o metrô não chegava, ela olhou para os lados e viu uma mãe que parecia não estar ali, a mente parecia não estar mesmo nesse mundo; mais abaixo ela viu novamente a garotinha, de mãos dadas com a mulher e que devia ter no máximo uns quatro anos. O jeito meigo e tímido da menina despertaram algo nela, mas, de novo, Alíshia descartou as sensações. O metrô estava chegando.

Quinze segundos era o tempo que todos tinham para entrar naquele espaço que persistia todos os dias em desafiar as leis da física. Alíshia entrou, com uma habilidade resultante de anos de experiência. Só teve tempo de olhar pro lado, ao ouvir o soar do apito sinalizando que as portas se fechariam, e ver que entre as portas que se fechavam estava a menininha. Um gélido arrepio esmagou seu corpo, como uma espécie de mau presságio, como se algo inevitável estivesse acontecendo e ela fosse a testemunha que via tudo de camarote.

Há dias em que as coisas estão realmente destinadas a acontecer. Você sente isso desde o começo do dia, mas a rotina é tão esmagadoramente grande que todos os avisos são irrelevantes porque os percebemos como sutilezas. E os confundimos. Depois, você percebe que poderia ter feito algo, que poderia ter agido, mas quando percebe isso já é tarde e você perdeu o instante decisivo. 

Mas, há dias em que a vida quer te fazer acordar e, pra isso, te dá um susto.

Naquele dia Alíshia foi dormir aliviada ao se lembrar do homem segurando as portas com as duas mãos enquanto a mãe puxou a filha pequena para si com uma expressão de que puxava de volta a própria vida. E, por isso, Alíshia sabia que as coisas seriam diferentes para ela como também s riam diferentes para aquela mãe.

domingo, 8 de julho de 2012

Surto psicodélico


Alíshia ficou quieta para ouvir o som estranho; se concentrou em não respirar por um momento. Não era um barulho qualquer: era um som baixo, mas periódico. Fez silêncio para tentar ouvi-lo novamente. De novo. De novo. Não se conteve, foi até ele. O que causava tal som? Da cama onde estava olhou para o estojo: parecia vir de lá. Rastejou até ele, que estava a 3 palmos de distância e ele foi aberto subitamente. Pensava em surpreender algo. Nada. Voltou ao seu lugar, mas não havia mais som. Sentiu-se como o homem que abriu com a faca a galinha que punha ovos de ouro a fim de encontrá-la toda dourada dentro. Também fizera uma coisa imbecil: cessara o som. Por culpa dela não havia mais ruído algum e não haveria mais.

Da cama fingia olhar a janela à sua frente e com o canto do olho vigiava o estojo. Havia algo ali, ah, havia sim. Hahaha. Havia algo. É, havia azul. Azul em suas unhas, em sua caneta e blusa. Havia azul no estojo também. E eles conversavam e riam. Riam dela!

Sentiu-se incomodada por ser olhada de forma tão insistente por um abusado azul de estojo! Ela ao menos disfarçava olhando a janela, já ele, ele não!, ele a olhava atrevidamente! Que ousadia! Ser olhada assim por um estojo azul que escondia dela o som. Aliás, um estojo azul claro. Que absurdo!

Buscou refúgio nas outras cores. Olhou a caneta vermelha, o mp4 verde, o pen drive prata, o celular preto, mas os sons e as cores estavam contra ela.

Subitamente um ser de azul entrou no quarto, sentou-se na cama, destroçou o estojo. Os outros azuis pararam de rir e, de repente, o som parecia vir de uma camiseta social qualquer. O ser de azul sem nome próprio saiu, tão de repente quanto entrou. As cores pararam de brincar brincadeiras de mau gosto com a garota, as cores começaram a se comportar. Mas Alíshia ainda pode ouvir sussurros medrosos e debochados entre a krocks azul e o prendedor de roupas azul. Raivaaaa! Explodiu tudo.

Não houve mais risos. Nem sussurros. Nem nada.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Não são de toda inutilidade os fatos...



Ela entrou na loja com um discurso bastante conhecido por nós, vendedores. Depois da minha obrigatória saudação matinal com um ar atencioso que me era imposto pela gerência, mas que eu assumia com muita naturalidade, ela disse:

- Bom dia, procuro uma sapatilha baratinha pra minha filha.

Percebendo o interesse dela pelos sapatinhos da nova coleção da Molekinha, logo mostrei o meio termo: não era tão caro que a inibisse e a fizesse sair da loja alegando mentalmente ser incompreendida, nem tão barato que a insultasse. Ela gostou bastante. Me pediu que pegasse o nº 25, na cor rosa. Olhei na sessão: não tinha; isso significava uma busca no estoque. Depois de encontrá-la e trazê-la em menos de 2 minutos, a menininha experimentou a Molekinha. Em seguida, aquela mãe que ainda não havia me surpreendido, constata:

- Seria melhor o nº 26, porque esse está bem certinho no pé dela.

Concordei, dei uma olhada rápida pela sessão: não havia. Simpaticamente, anunciei que iria   ao estoque buscá-la. Chegando lá, não encontrei na cor que ela queria: voltei com as outras duas cores, que ela repeliu com o argumento de que ‘preferia rosa para a filha’.

Não sei explicar como acontece de mantermos pensamentos internos e uma conversação com outra pessoa ao mesmo tempo, mas, nesse momento, as aulas da universidade vieram a minha mente, me fazendo pensar na reprodução social e refletir superficialmente sobre o papel coadjuvante que eu adquiria naquela hora ao concordar com o argumento daquela mãe. Essa minha concordância também implicava em outra coisa (mais grave do ponto de vista profissional, se minha gerente me estivesse ouvindo): eu não deveria concordar com ela se isso implicasse na cena de uma mãe saindo da loja com duas crianças sem ter comprado nada. E mais: sem que a vendedora que a tivesse atendido tentasse influenciá-la a levar a sapatilha em outra cor porque, afinal de contas, havia o ‘pretinho básico’ que combina com tudo. Somente nessas horas nos era permitido ‘romper’ com o pré-estabelecido social e culturalmente: somente quando isso implicava na decisão do cliente entre comprar e não comprar. Daí estava tudo liberado, desde sapato de mulher pra homem, e nisso eu me confundia: servir aos interesses capitalistas refletidos pela gerente ou aqueles refletidos pela cultura? Fugir de um era necessariamente cair em outro? Nesse dia não é que eu não estivesse com o espírito de vendas ou que eu estivesse com raiva da cliente por ela querer o que ela queria. Eu simplesmente estava deixando as coisas fluírem.

Enfim, voltei ao estoque e lá estava uma Molekinha nº26 na cor rosa. Eu não a havia notado. Voltei com ela e a mãe ficou felicíssima. Acredito que foi nesse momento que ela despertou a atenção em mim, embora eu ainda não tivesse notado que prestava tanta atenção nela.

Continuamos a conversa vendedora-cliente, ela me contando o que fazia na avenida, que queria somente ‘olhar’, mas que gostara daquela sapatilha para a filha. Foi então que percebi que percebia como ela tratava os filhos. Depois, parando pra analisar, fiquei com inveja, uma inveja contente, quase satisfação de ver algo possível: uma mulher feliz e desempenhando tão carinhosamente seu papel de mãe. Confesso, fiquei feliz. Mas não feliz por ver uma mulher reproduzir o papel que lhe era culturalmente imposto, mas feliz pelo jeito. A título explicativo, eu ficaria feliz se fosse um homem também. Me senti tocada por aquela relação humana: a filha tratada com carinho, o filho tratado com carinho, como crianças, crianças amadas, amor expresso no toque leve, na fala, nas ações. Não sei explicar bem, mas me senti contente por fazer parte daquele momento.
Sei que havia um sorvete na mão dela, mas, agora, por mais que eu tente lembrar qual papel o sorvete desempenhou, ele me parece mais como algo que eu imaginei na cena. Mas não. Realmente havia um sorvete.

Filhos comportados. À primeira vista parcial e de longe, como a uns vinte metros de distância, você diria: 'Olha lá, a família Doriana, o pai não aparece porque está trabalhando'. Mas ali, no meu lugar você veria algo mais real, mais animado, como se um sentimento bom estivesse personificado e brincando com as crianças enquanto aquela mãe começava a procurar algo pra ela.

Não procurou muito, foi rápida, parecia direta, certeira: um tipo de cliente ideal, que sabe o que quer, que pega e que não muda de idéia constantemente. Parecia não estar focada nela e não estava. Ela, antes de mim, observava o olhar do filho em direção à chuteira cinza do Neymar. Direcionava um olhar esperto pra alegria do filho enquanto via as mãos do mesmo pairarem sobre seu objeto de desejo. Não evitei o pensamento de uma sociedade consumista: será que era dando algo material ao filho que ela expressaria seu amor, sentimento materno, sei lá? Mas, ainda não era isso. Ainda acho que tinha alguma a coisa a ver com o sorvete. Ela, por sua vez, não evitou a pergunta:

- Você quer essa, filho?

Busquei a numeração, ele experimentou. Nesse meio tempo, ela atendera ao telefone, conversara sobre ter levado o filho ao médico, sobre estar numa loja por ter visto algo pros filhos, etc. Desligou, perguntou o preço da chuteira. O preço do que ela levaria para ela mesma representava 1/4 do preço da chuteira e 1/3 do preço da Molekinha. Contava o dinheiro enquanto dizia ao filho:

- Se não der, eu volto aqui pra buscar pra você. Você quer essa, filho?

O menino afirmava infantilmente e parecia que não iria se decepcionar se o dinheiro não desse, parecia confiar nas promessas da mãe. Ele e a irmã mais nova que ele brincavam no chão, sem fazer bagunça, barulho, sujeira. Brincavam de uma maneira divertida; a mãe, nas palavras e no modo de pronunciá-las, parecia proporcionar aquele estado, parecia que aquilo emanava dela.

Contou o dinheiro, me perguntou quanto ficaria tudo e disse que levaria o do filho, mesmo que tivesse que deixar o dela. Ela não disse nessa intenção de parecer sacrifico, disse numa intenção de um desejo que quisesse cumprir, de uma vontade que era dela: a vontade de ver o filho feliz com o que queria ao invés dela com seu produto. Troca justa? Troca sincera, cheia de um desprendimento radical. Por que não havia naquele espaço e tempo uma outra maneira de demonstrar tanto carinho e afeto? Talvez porque, ali, fosse o lugar mais impróprio para tal e que todo aquele carinho e afeto tenha se moldado e se rendido às formas nas quais podiam se expressar para não sumirem simplesmente, para que não deixassem de acontecer. Não importa se Z representa 1/7 de X+Y pro capital, nessa troca que ela fazia, Z valia muito mais.
Depois de contar o dinheiro e constatar que daria praquilo que os filhos queriam, ela ficou mais contente.

- Nossa, ainda bem.

E riu.

O que aconteceu depois disso foi um gran finale, pulando a parte do pagamento que sempre estraga qualquer reflexão mais humana sobre um acontecimento assim. Ela me agradeceu e eu quis agradecê-la. Dei tchau pras crianças. Ela saiu da loja e acho que foi somente aí que realmente parei pra pensar no sorvete. E acho que era ele quem inspirava aquele ar de ‘carpe diem’. Não, não era ele quem inspirava. Não sei o que era. Só sei que a vi andar pela calçada; ri satisfeita pra mim mesma. Acredito que foi nesse momento que notei que prestara tanta atenção nela.

quarta-feira, 7 de março de 2012

Espetáculo no ônibus...



Não era um dia comum. O ônibus estava parcialmente cheio, mas havia espaço suficiente para que cada passageiro em pé pudesse existir em paz durante o trajeto. E estes ficavam felizes porque, em dias assim, seus três reais adquiriam a capacidade não só de pagar a passagem mas também o espaço.

Mas aquele era um dia diferente e todos ali sabiam disso. E, embora felizes, usavam suas máscaras introspectivas. Ora ou outra havia algum louco que, em dia de chuva, transcrevia nos vidros os pensamentos de um momento insano e tinha a capacidade de atrair para si olhares de reprovação. Ônibus é lugar de cada um ficar na sua, sem chamar atenção e se, por acaso, quiser participar de um momento de escape, esse deveria ser solitário e silencioso. Sem testemunhas. Uma atuação dentro de si com um único telespectador: o próprio que apresenta o espetáculo.

Passageiros, em pé ou sentados, empenhavam seus papéis; mas a vida, pra rir um pouco, decidiu pelo inesperado só pra saber quem ali saberia improvisar.

De repente, num ponto também incomum, uma passageira decide descer. E, bem, não era uma passageira qualquer porque ela estava sentada e deixaria um lugar vago. Rapidamente, todos os assentos transformam-se em cadeiras feitas especialmente para presenciar a cena que se segue.

As cortinas se abrem. Uma luz recai sobre o assento vazio. O ônibus retoma sua atmosfera e seis pessoas se veem obrigadas a improvisar. Improvisam sua exasperação forçada por um lugar que todos ali poderiam muito bem viver sem, obrigado. Um minuto se passa e o lugar continua vago. Algumas das cadeiras especiais percebem e riem - disfarçadamente, claro. O espetáculo vai ser divertido hoje.

As seis pessoas, por ironia, estão relativamente em pé de igualdade em relação a distância do assento, que agora parece brilhar. Lá fora, um sol escaldante e os seis percebem, uns mais cedo, outros nem tanto, que aquele lugar está na sombra. Passam então a observar uns aos outros, com discrição. A plateia vê que seus três reais se multiplicaram: pagam passagem, espaço e diversão num espetáculo improvisado. Não rir passa a ser tarefa quase impossível, mas se esforçam e alguns até já têm seu preferido.

Cinco minutos se foram e a vida, pra deixar mais divertido, não deixará entrar ou descer outro passageiro por um tempo. Uma moça, no auge de sua indiferença, é a primeira a desistir do lugar. Pega um livro e se concentra nele. Restam cinco. Sem que ninguém saiba já há mais dois rapazes que decidiram esnobar o assento. Não, estes não se sentarão. Restam três e 10 minutos se passaram.

Parte da plateia que vê seus preferidos recuarem e começa novas apostas. Mas a vida queria rir hoje e queria rir muito, por isso deixa um passageiro entrar. Novamente quatro, mas o novo passageiro apesar de não demorar muito para entender o que se passa demora para decidir: Sentar ou não sentar: eis a questão. E ele decide que não pode disputar o lugar. É o 4º a desistir e 15 minutos se passam. Impressionante. Quando, de repente, engarrafamento. A plateia desaba em risos. Não, não há motivo para estresse algum.

—Hahahaha.

Percebem, então, que dos três, dois acreditavam aguentar firme até seus respectivos destinos e, ao verem suas expectativas frustradas pelo trânsito, voltam a concorrer. Quase 18o minutos de diversão se passam até que o rapaz de blusa social azul clara decide encerrar o ato e senta-se. E a vida, pra dar mais uma prova de que aquilo era comédia, faz com que os sinais fiquem verdes e o engarrafamento pareça ser mito de algum planeta inabitado situado em alguma galáxia qualquer da imaginação humana. O ponto do rapaz de blusa social azul clara é aquele. E ele desce escondendo o rosto atrás da mochila.

A plateia ri freneticamente , nem se dá mais ao trabalho de fingir qualquer coisa. Aquilo, deixam claro, é comédia e nunca, nunca fora drama ou suspense e, pelo visto, estava longe de ser ação.

—Hahahahahahahahaha!!!

Os dois passageiros em pé que disputavam o lugar, uma garota de bolsa vinho e um rapaz, se olham e , estupefato, ele percebe que ela estava disposta a prolongar tudo aquilo. Ele ri, e a plateia não percebe porque ele riu com os olhos. E senta-se ao perceber que só restava uma pessoa que realmente queria o lugar. E essa pessoa era ele.
.
Nos pontos que se seguem todos os desistentes encontram seu rumo. As apostas já foram encerradas e os vencedores repartem o prêmio rumo ao ponto final. Dos que disputaram permanecem no ônibus apenas o rapaz que realmente quis sentar-se e a garota de bolsa vinho que, apesar de todos os lugares que vagaram, escolheu ficar em pé. Porém foi somente nessa última parte do trajeto que a plateia e o rapaz que realmente quis sentar perceberam que, por todo o espetáculo, a garota também fora plateia. Mas o que nunca vão saber é que, desde o começo, ao invés de apostar num vencedor, ela escolhera observar para escrever tudo depois.

quinta-feira, 1 de março de 2012

Olhos de gata à meia-noite...



A gata desfila pela casa como uma rainha. Senta-se, observa e nada escapa a sua atenção. Senta-se num chão que carrega em si marcas de dias iguais, marcas perceptíveis na sujeira que não se dá mais ao trabalho de esconder-se sob o tapete e fica a vista de todos, inclusive da própria gata.

O mesmo chão pisado por pés sem rumo, que seguem apressadamente para lugar algum, que vagam pela casa, que vagam pelo olhar da felina que, religiosamente, senta-se disposta a cumprir sua tarefa. Tudo observa a gata e ela tudo observa de volta.

Perto das 7h ela dorme no quarto quente e passeia um passeio sonâmbulo quando pensam que ela acordou. Ventilador, televisão, parede, mala e chão: tudo na casa pensa enquanto humanos dormem.

Quando metade do dia se vai a gata vai também. Vai pro lado, pra encenarem a limpeza do chão. E a felina cumpre seu papel com maestria, sendo ela a única que não precisa fazer-se atriz. Ela incorpora seu papel e vai pro lado.

Mas sempre, sempre perto das 22h, a gata pára feito estátua, senta-se e observa. Observa com olhos cansados de ver, dia após dia, a mesma coisa vaga e vazia impressa na rotina de encenação que ela se põe a observar. E a participar.

Perto das 23h ela busca nos lados alguma resposta minimamente convincente pra inércia que invade todos aqueles que observa. Não encontra nada. Os objetos e móveis da casa sussurram hipóteses erradas na esperança de, um dia, desvendar tal enigma. Mas não há razão para pressa. Amanhã a gata tudo fará novamente e todos terão outra oportunidade para errar.

Agora a gata deita-se. Vai restabelecer-se pois precisa desfilar feito rainha amanhã e a casa é grande, o esforço é grande... E então chega a hora de não tirar os olhos de mim e o relógio soa meia-noite.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

O refúgio de Clara...



Abrir a janela a noite sempre fora o refúgio de Clara. Olhar lá fora e fingir que o mundo era colorido, que os problemas eram apenas provas a se superar, que a cidade era linda refletida nos faróis dos carros acesos funcionava como um anestésico para a vida real.

Durante o dia, a rotina de Clara a consumia, mas, com o tempo, ela descobriu uma maneira de fazer tudo mecanicamente para devanear nos intervalos em que não precisasse pensar em absoluto. E assim lavava, varria e cozinhava enquanto percorria campos verdes lutando artes marciais e bancando a mocinha má que, só de birra, salvava o mundo de salto alto e rouge. Assim ia vivendo.

Às vezes, no entanto, ela precisava despertar e se via respondendo 'Não' enquanto voltava para a realidade e descobria que o que a filha lhe perguntara era se ela, Clara, poderia pegar sua lancheira em cima da geladeira. O passo que deveria dar para consertar tais desligamentos era pausar a fuga da heroína ou adiar a viagem perigosa por dentre árvores densas e pegar a lancheira, colocar um copo d'água e dar à filha ou colocar ração pro cachorro.

Com o tempo, as noites na janela e as escapadelas para seu refúgio durante o dia não mais eram suficientes. Foi em um desses dias que teve seu estalo: as histórias todas já haviam sido contadas, agora só poderiam se repetir. Como suportaria isso?

Naquela noite, Clara encenou sua última peça inédita, uma com um final sem igual. E assim, antes de se deixar cair do 14º andar decidiu que esse detalhe também fazia parte. Não pensou na filha, no cachorro ou no marido. 'As histórias se acabaram', foi seu único pensamento.

sábado, 28 de janeiro de 2012

Sua Majestade, o Chinelo...


Maior conhecedor das ruas desta cidade não há. Desde que fora feito para cumprir uma função de importância ímpar na vida de pessoas tão diferentes, ele tem se resignado a ser pisado, suportando sobre si o peso das existências vãs. Futilidades o obrigavam a se mascarar em várias formas que não levavam em conta apenas o conforto de pés pecadores, mas as exigências e frescuras de endinheirados. Bah!, se resignava por falta de opção. Ele por si gritaria, mas este surto que rompe com a lógica não lhe era permitido no mundo real. Gritava, então, na ficção:

—Ahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh...

E xingava no virtual:

—@'*%#**$¨@'

Se expressava e via seus sentimentos materializados nos olhos de nuvens distantes:

—Chove hoje.

É, chove hoje. Chuva de raiva, ódio, rancor e decepção. Seres superiores?, zombava em pensamento. Não. Seres achistas apenas. Que acham, não têm certeza. Acham que vassouras são mudas, que elas não falam. Acham que sapatos pisados, seus parentes próximos, suportam tudo com quietude de matéria prima morta. Acham que chuva é fenômeno meteorológico e nada mais. Mas estão errados no tempo presente, perfeita e imperfeitamente errados no pretérito e estarão errados no mais distante dos futuros.

Chuvas são sentimentos materializados da realeza usurpada da terra. E com a palavra Sua Majestade, o Chinelo.

sábado, 2 de abril de 2011

Bem-vindos, esse é o Brasil.




Não precisa perguntar, eu confesso... houve sim, na minha vida, um dia em que eu acreditei que as coisas funcionavam nesse país.

Foi no ano passado.

Me convidaram para participar de um campeonato e eu aceitei. Calma, calma... Claro, eu tinha as minhas obrigações, as minhas 'responsabilidades', uma delas até se chamava trabalho... Por que eu aceitei, então? Ah, porque eu quis aceitar. Nesse momento em que aceitei eu queria que todo o resto se danasse... É horrível deixar de viver coisas que você vai guardar sempre consigo por causa dessas responsabilidades que, à propósito, nos são impostas para continuar vivendo. E se fosse para aceitar hoje de novo, eu aceitaria, ponto final, caso esclarecido.

Então, vamos pular já pro dia em questão. Ah, era um campeonato de xadrez...

Eu tinha treinado muito na véspera e me sentia insegura ainda. Coloquei o celular para despertar e eu não me lembro a razão mas ele não tocou... Estava atrasada e sequer sabia (porque eu estava dormindo). De repente, o telefone toca (o telefone, não o celular), eu me levanto bem relaxada 'não é a hora ainda', pensei... A voz do outro lado estava desesperada para falar comigo:

- Então, a sua equipe está te esperando aqui, o ônibus acabou de chegar e sai em 10 minutos. Vem pra cá!

(Pausa pra alguns detalhes: o telefone era sem fio, então eu corri com ele pra ver a hora no microondas; o lugar em que o ônibus estava era uns 20 minutos longe da minha casa; conclusão: não daria mesmo pra chegar lá. A sorte - vamos chamar de sorte nesse caso em especial - é que eu trabalhava e tinha grana pra ir de ônibus.)

- Não dá tempo, eu acabei de acordar...

- Você tem que ir! Sem você sua equipe será desclassificada.

(Pausa 2: Preciso dizer que essa é uma frase chave? Nessa hora eu não só me senti pressionada mas também senti que era minha obrigação salvar minha equipe... Me senti uma supergirl... Eu iria correr contra o tempo e contra o desconhecido - eu não sabia chegar no lugar do campeonato - e eu venceria tudo. Nossa! Que frase poderosa essa, rs...)

- Já estou indo.

Peguei minha roupa, escovei meus dentes, engoli pão e café com leite, peguei uma bolsa-nada-a-ver-com-a-roupa e fui salvar minha equipe. Fiz muitos amigos no ponto de ônibus com minha história. 'Você consegue chegar lá sim, pega ônibus tal, desce no lugar tal e boa sorte no campeonato', 'Obrigada' (eu sempre tão educada!). Entrei no ônibus.

(Pausa 3: Eu fiquei maluca a cada parada do ônibus, quase surtei com o trânsito, fiquei imaginando 'e se eu tivesse ido andando', - e mais coisas imbecis- porque, não se esqueça, eu tinha que salvar minha equipe! Ah, sem contar a tortura de imaginar se me deixariam passar pelo portão com só um simples papelzinho e meu RG).

Cheguei lá. Entrei numa boa. Ninguém nem percebeu que eu tinha chegado, o campeonato só começou duas horas depois. De 5 jogadas eu só ganhei 1 e, mesmo assim ganhamos medalha de prata (minha equipe foi bem melhor que eu, rs).

Sabe, eu poderia ter odiado tudo isso, mas eu até gostei. Nessas duas horas conversei com um monte de gente que eu via todo dia e que nunca tinha parado pra falar, fiquei coleguinha de uma menina muito louca (parecia euzinha naquela idade, nas maneiras), conversei, me diverti... eu só não salvei minha equipe. Ela me salvou, rsrs.
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(Pausa 4: Fiquei sabendo depois que éramos uma das poucas equipes completas. E todas jogaram sem problemas. Esse é o nosso país! - Crítica ou não, foi um dos melhores dias da minha vida. Esse é o nosso país, rs...)
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P.s: Nada de verde-amarelo, minha cor preferida é azul mesmo.

terça-feira, 29 de março de 2011

Tristeza...

Como conseguia isso? Helen levantava-se todos os dias e mirava-se no espelho, sustentando sempre a mesma mentira. 'E o que é tão grande que suprime toda a sensatez?'...(É o que é tão infinito que não cessa mesmo com a mais imensa alegria...)

Levantar-se. Caminhar rápido para não pensar em si. Procurar pessoas para não sentir-se só - e não ter tempo de refletir sobre nada. Rotina... Afazeres e desenhos tão bem feitos que retratavam a alma... a alma de um outro alguém, nunca a sua própria.

De tão complexa era simples... de tão simples era fácil, de tão fácil era rapidamente aceitada. Ninguém a conhecia e ela não seria a primeira a aprofundar-se em si.

Bebia sua água e atentava-se sempre para a última gota escorrendo pelo copo. Uma última, simples, logo reprimida por Helen, que deixava subitamente de observar o reflexo de seu rosto projetado no copo...

terça-feira, 8 de março de 2011

Minha viagem histórica..


Amanheci e coloquei o pé no chão. Era um chão diferente, mais cool, me disseram. Eu e minha mania de imaginação fomos andar por aí. Mas, o legal, é que era num outro "aí" no qual nós andávamos e, de repente, nós corríamos e voávamos, nós fazíamos revolução. E depois de tanto voar, nós paramos, do nada, só pra ver uma umas pinturas estranhas numa pedra com dinossauros nos olhando...

Depois corremos tão rápido que eu, de repente, era luz. Mais pra frente paramos para piratear com caras em barcos e pra ver guerras. Vimos ocupações. Vimos Roma crescer e cair. Vimos deuses e heróis gregos num ideal triplo. E nós ouvimos mitologia.

Mais pra frente, corremos da Peste Negra e queríamos pular toda a história só pra ver dançar Isadora Duncan e pra ver Olga desmaiando na prisão. Depois, num olhar que eu bem conhecia, me convidou pra ouvir música e ver Alma Rosé, em Auschwitz, reger sua orquestra de lutadoras. Você me convidou pra ir ao dormitório e eu fui de olhos fechados, só pra não ver horror e, então, lemos nas paredes palavras de esperança: "Amanhã eu fico triste..."

Você me convenceu a ver cartazes dos cinemas e lembrar de Anne e eu ri. Depois me jurou que acabaria bem,"você vai ver", me disse. Fui com você tranquila e, de repente, o Japão recebe uma rosa radioativa. Me desapontei. E de novo vi você falhar quando vimos começar a Guerra Fria e, então, me lembrei da Rússia, mas você não me deixou prosseguir.

Corri pra um país tropical, pensando escapar. E de repente, estoura rock'n roll, depois bossa nova (e eu ouvindo Nara cantar mesmo preferindo Elis) quando, de repente, Ditadura... E aqui e ali tudo era proibido e, percebi assim, sem mais nem menos, que o Medo estava viajando com a gente fazia muito tempo e me perguntei se você o tinha inventado... Não, eu tinha.

E, mesmo assim, pensei em retroceder a viagem para buscar a caixa da Pandora, só pra mostrar que ainda restava a Esperança, mas você me disse: "Não! Eles dirão isso com música" e eu te ouvi.

E, me lembro, de ter encolhido no canto por ver discriminação nos EUA, por ver a guerra do Vietnã, por ver repressão e depois de sorrir vendo hippies e punks. Abaixei a cabeça com o apartheid e com Ruanda, porque me lembrei da menininha e de Imaculée... E, de repente era outro milênio e eu me perguntei se tudo recomeçaria...
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Você me estendeu a mão e disse "Vem, vamos pra casa" e eu lembro de ter olhado pra trás e visto o Katrina, o Haiti, a China tremer e o Chile também. E você me dizia "Bem, eles farão uma música pra isso" e fomos embora.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

O tempo certo de cada livro...



"Abramos o livro!", gritaram juntas em coro Ansiedade e Curiosidade quando, através dos olhos de X, viram-no. Inventaram mil aspirações, aspirações essas que não tardaram em passar à menina enquanto ela mirava com intensidade capa e contra-capa daquele tesouro que tinha em mãos; fizeram-na devorar, letra por letra, o título instigante. Venceram! X levou o livro.

Ansiedade e Curiosidade, imediatamente, levaram-na a lê-lo avidamente. E fez-se o desapontamento da pobre X... Não! Definitivamente não gostara do que lia, 'Deixemos de lado essas tais folhas banais...', disse, impetuosamente, Ansiedade. 'Mas, o que há em outras páginas não se compara ao que se encontra em suas cinco, seis páginas iniciais. Um simples rabisco põe o pé a porta com medo e insegurança, mas logo esse rabisco se desfará de toda timidez e surpreenderá a todos com o que nos dirá. Continue a ler, X!'

X, convencida, não pela argumentação de Curiosidade, mas por suas belas palavras empregadas tão habilmente, pôs-se a ler aquele livro contra sua própria vontade ou interesse. 'Em dois dias, no máximo, X terminará esse livro e estará livre para outro que lhe acrescente algo.' Ansiedade impôs a X um prazo que a menina não queria, mas prometera seguir.

Os dois dias se passaram, mas X não terminara o livro.

"Como não?", gritaram, perplexas, Curiosidade e Ansiedade, fazendo, assim, com que X, finalmente, ganhasse voz:

— Cada livro retira de nós algo antes de nos acrescentar conhecimento de mundo, coragem, perspectivas... E isso demanda tempo de nossas vidas. Pena não podê-las fazer entender o tempo certo de cada livro.
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Uma frase surgiu pra mim hoje e eu, tentei o melhor que pude, não deixá-la isolada. Organizei todas as outras apenas para servirem de suporte para que, no fim de tudo nos ajudassem a entender que é preciso que aproveitarmos ao máximo o tempo certo de cada livro.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

INFELISMENTE não vai estar dando...


Os céus são testemunhas do gelo que perpassa minha espinha quando ouço ou leio algum erro de português considerado gravíssimo. Claro, sei que nem todo mundo é formado em Letras mas, vamos fazer valer aquele diploma de conclusão do Ensino Médio ou o boletim escolar que comprova que sim, nós tivemos de cinco a seis aulas de Língua Portuguesa por semana por nada menos que 11 anos.

Também não estou aqui para julgar aqueles que, por um pequeno momento escreveram "BERINGELA" porque ficaram na dúvida se era com "J" ou "G" e, muito menos, os erros de digitação que nos fazem escrever "oPlhar" por engano e que, por mais incrível que pareça, passam desapercebidos quando fazemos a nossa revisão.

Claro, quem nunca cometeu um erro de português que atire a primeira pedra.
Mas sim, leitor, estou me referindo àqueles que insistem no erro mesmo quando nós perguntamos, perplexos: 'Pra MIM fazer? Não tem nada errado NISSO, não??'

Porém, o que me levou a postar hoje, com o coração na mão, foi o INFELISMENTE e o gerundismo exacerbado que tive que ouvir (quase surtando) hoje. Eu traduzia mentalmente cada "pra poder estar estudando" ou "pra poder estar aprendendo" que ouvia para manter a minha sanidade.
Aconteceu então que, uma alma que eu julgara bondosa, se pronunciou com essa: "Está faltando um 'FOI' na frase 'você reprovado pelo nosso sistema'. Eu, dentro de mim, exultava. Ah, por favor, perceba o INFELISMENTE!!! Mas... nada, nada mais que isso. Todas as palavras ali ela julgara agradável aos olhos e ouvidos. Criatura maldosa!

É, estou quase tendo um ataque por causa dos papéis que tenho em mãos. E isso se deve ao fato de conter tantos erros ortográficos cometidos por aqueles que se acham os tais. Por aqueles que acham que 11 anos tendo aulas de Língua Portuguesa foram somente pra passar o tempo e acredita[va]m piamente que você não usaria pra mais nada. E daí se está errado? E daí se o passado do verbo dizer é DISSESSE (com 4 S's e não com sc)?

INFELISMENTE, não vai estar dando mais pra aguentar isso calada. Ou falo pra poderem estar parando com isso ou me rendo a essa loucura verbal.
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Gramática, perdoe os Operadores de Telemarketing. Eles não sabem o que falam!

domingo, 11 de abril de 2010

Carpe Diem...


Eu estava em um lugar totalmente desconhecido, mas, em nenhum momento, me senti perdida. Eu não sabia mais o caminho de volta, pois outros pensamentos, desconexos e sem sentido, haviam tomado minha mente. Eu pensava em milhares de coisas e sequer sabia em qual rua deveria seguir. Eu perguntava as pessoas, confiante, dependente, e seguia para um lugar que eu não tinha mais em mente. De repente, meus lábios entoam: Carpe Diem!

A chuva veio. Ela, que havia parado há poucos minutos, retornava forte, decidida a me molhar. E eu somente seguia pra não sei aonde. Cheguei ao meu destino, totalmente molhada: meus pés nadavam dentro do meu tênis. E, mesmo assim, me vinham duas palavras: Carpe Diem!
No ônibus eu segui lendo, totalmente concentrada quando, de repente: Carpe Diem! Fechei o livro por alguns instantes e meu pensamento foi longe. Me dei conta de que eu nunca mais estaria ali, de novo, naquela liberdade, com a chuva gélida, com o tempo todo a meu dispôr, podendo seguir em qualquer rua sem ser escrava do tempo. Eu estava ali e podia tudo. O tempo podeira passar, eu não ligava; se ele quisesse parar, eu não daria a mínima.

Me dando conta disso, olhei perplexa para os lados e vi apreensão nas faces que me rodeavam. Todos ali, praguejando o mal tempo, totalmente submissos ao relógio que traziam em seus pulsos. E eu? Carpe Diem! O dia foi totalmente meu: com meus pensamentos, minha leitura, meu tênis molhado. Eu estava no paraíso terreno e me senti muito bem.

O presente é efêmero, talvez ele sequer exista. O que existe, na verdade, é uma sequência de atos, que tentamos aproveitar. Um dia esse esquema no qual as pessoas vivem, em pleno século XXI, vai bater a minha porta, vai entrar e, talvez, fiquemos sentados no sofá da sala enquanto ele me prenderá em suas teias através de um marketing bem feito. Talvez eu caia nele, como muitos. Talvez não. Só sei que uma pessoa disse uma vez: "a felicidade está nas coisas simples da vida", ela está num dia chuvoso e gélido no qual uma pessoa anda sem rumo. Ela está, também, à nossa porta, basta que ouçamos seu chamado, que a deixemos entrar e...
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... que aproveitemos o dia...

quarta-feira, 31 de março de 2010

Datas para se lembrar...


Hoje fazem 46 anos do golpe militar. Data essa que muitos não esquecerão; data que não poderá fugir de suas mentes, pois ditava um novo modo de se pensar o Brasil. Mesmo sabendo que a ditadura em si se deu em 1968, esse ano de 1964 também é histórico, também é significativo.

Hoje, por coincidência, (quem saberá?) também é uma data importante para mim. Hoje é aquele dia em que se ouve "Parabéns pra você nesta data querida/ Muitas felicidades, muitos anos de vida..." Sim, hoje é um dia festivo, alegre. Aniversários têm essa capacidade de nos fazer analisar nossas vidas de um modo mais maduro, mesmo que seja por um breve espaço de tempo. E a minha maneira de ver o mundo de forma madura é pensar na história, no que aconteceu e que teima em fugir da memória (ainda mais quando essa memória não é feita de vivência, mas sim de relatos, leituras...)

Infelizmente, nós brasileiros, temos exemplos históricos que frustram nossas expectativas. 

Lembrar de Canudos, para mim, é ver uma oportunidade perdida, uma chance escapar das
mãos mesmo quando você as junta o mais que pode para que isso não aconteça. Também me lembra brutalidade. Brutalidade ante o pedido de socorro humano para se ter uma vida melhor, uma vida digna... A Ditadura me lembra o quão baixo o homem pode descer em busca de uma forma de colocar sua opinião como absoluta. Uma forma de ver suas vontades alcançadas a qualquer preço, sem considerar a opinião do resto da população...

Enfim, não quero lembrar de 31 de março, em todos os anos que virão, como uma simples data de aniversário. Quero lembrar desse dia (mesmo tendo traçado um futuro desagradável para muitos do nosso país) como um dia em que se iniciou uma situação que faria o Brasil reagir e fazer valer a Democracia, mesmo que alguns anos depois. Há quem diga que onze anos não é nada, historicamente falando, mas...
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Nós não somos como a história, que tem todo o tempo à seu dispor... Então, aprendemos a valorizar o tempo, porque aprendemos que:

11 anos fazem a diferença para quem viveu num regime militar;
1 ano faz a diferença para quem repetiu na escola;
1 mês faz toda a diferença para uma mãe que perdeu seu filho por ter nascido antes do tempo;
1 semana é importante para um editor de um jornal semanal;
1 dia é importante quando se comemoram datas;
1 hora é extremamente importante para os amantes apaixonados;
1 minuto representa muito para alguém que acabou de perder o trem;
1 segundo é eterno para quem teve sua vida salva de um atropelamento.

sexta-feira, 19 de março de 2010

Um bolo e uma reflexão...

Entrei no ônibus com uma decisão. Seria alguma pessoa presente ali, naquela aglomeração humana, que receberia o meu triste símbolo de despedida. E foi exatamente o que aconteceu. Um homem se ofereceu para segurar meu embrulho e o ganhou de presente. Ele olhou para mim inúmeras vezes, com olhares perdidos; deve ter pensado que eu estava louca. E ele tinha razão.
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Tudo começou com uma indicação. Fui indicada a ir, todos os dias, na mesma hora e no mesmo lugar por quatro semanas seguidas. Era um curso para complementar meu currículo. E essa foi a minha rotina fiel até hoje. Muitas coisas aprendi, não somente coisas relacionadas ao propósito do curso, porque a gente nunca aprende só isso.

Eu devia levar um bolo. De chocolate (que, a propósito, eu 'não gosto muito' - eufemismo para "odeio"). Muitas coisas haviam ali, naquele endereço que eu segui religiosamente naquelas quatro semanas. Eram deliciosas; porém não havia uma faca. Uma faca para cortar um bolo. Um bolo de chocolate. À propósito, um bolo de chocolate que ficou intocado.

A despedida me pegou. Foi além do que eu esperava, o apego àquela realidade que eu sabia que seria momentânea foi grande demais. Sai de lá com o bolo. Mas sai também com vontade de me livrar dele. Eu passara ali, por aquele caminho, exatas 19 vezes, em direção ao ponto de ônibus. Era a vigésima vez. E a última também. Pensei em dar o bolo para alguém na rua, "alguém que precisasse". Ah, você entendeu! Mas não encontrei, não no vigésimo e último dia. O bolo pesava, estava com os braços doloridos. Eram seis quadras. Seis quadras sem encontrar "alguém que precisasse": ah! que ironia...

Cheguei ao ponto e o ônibus não demorou muito, passei pela catraca e, em menos de dois minutos o bolo era do homem que se ofereceu para segurá-lo. Ele, ironicamente, segurou e, provavelmente, a essa hora, já deve ter comido com sua esposa e filhos ou com seus pais, eu não sei disso pois não o conhecia.

Porém sei que, meu olhar estava distante e eu encontrei muitas pessoas que poderiam merecer aquele bolo. Uma moça com aparência de quem tinha andado o dia todo atrás de emprego; um homem que vende doces em ônibus, fechando os olhos com expressão de cansaço; uma família vendendo serviços gerais no farol e muitas outras que você, provavelmente já deve ter visto inúmeras vezes.

Eu precisei entregar a alguém o símbolo de despedida, e entreguei. Posso ter entregado à pessoa errada, mas não saberei porque não conheço nada a respeito do receptor do bolo. Tenho apenas suposições, à deriva, em minha mente. E sei também que se, não só eu, mas também as pessoas que não gostam muito de bolo de chocolate (só pra começar) fizessem isso uma vez a cada quatro semanas, eu não posso afirmar que se acabaria com a fome do mundo (claro que não! Não sou tão tola assim!) ,mas, pelo menos essas pessoas poderiam ter na memória a imagem de uma pessoa, desconhecida, saindo feliz de um ônibus lotado em direção a sua casa com um bolo nas mãos e um sorriso agradecido no olhar.
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É, eu fiquei olhando o homem atravessar a rua...