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terça-feira, 3 de novembro de 2020

(Des)embarcar

Reprodução: Filme "O poço" (2019)


Eu teria que mudar tanta coisa em mim para que fosse bom para você, que, no fim das contas, seu não foi um alívio...

quinta-feira, 29 de novembro de 2018

Então, tem esse cara...

Reprodução: Google Images

Ninguém prometeu nada, mas a boca dele é tão boa de beijar
E o jeito que ele sorri é tão iluminado
(não existe outra palavra possível para descrever aquele sorriso)
que parece que os olhos dele sorriem junto

Tem esse cara que me manda os melhores memes da internet
(como alguém pode fazer uma seleção tão apurada de memes?)
E que embarca de um jeito louco nas perguntas loucas que eu faço
- que às vezes eu elaboro perguntas bizarras já pensando nas respostas dele

Eu só sei mandar "hahahahahahaahahh" e "rsrsrsrsrsrsrsrsr" e "kkkkkkkkkkkkk"
Pessoalmente, eu até tento explicar que eu rio de verdade nas conversas
Mas ele é tão"ok risos" que eu fico sem graça de confessar que, na verdade, eu gargalho
Ele manda qualquer coisa engraçada e eu gargalho. EU. GARGALHO. ALTO.

Enfim, tem esse cara que surgiu na minha vida por caminhos pós-modernos
E que fala todo dia comigo há alguns meses sobre qualquer coisa mesmo
De fato, ele existe, porque a gente já se encontrou algumas vezes
(mas confesso que cheguei a cogitar que a existência dele se resumia a mistérios da programação)

Então, tem esse cara fora da caixinha - ou dentro da caixinha, mas que faz a caixinha ser legal pacas
Esse cara cuja lembrança é quase um calmante em meio a rotina agitada que eu tenho no trabalho
E que não precisa fazer nada demais, nada mesmo
Pra me inspirar a escrever sobre como ele é um carinha bem legal

segunda-feira, 15 de maio de 2017

Sobre ser ousada feat corajosa e fazer jus ao meu nome

Parte de mim insiste para que eu comece dizendo que estou numa enrascada, embora muitas pessoas possam discordar de mim e me dizer que não, eu não estou em enrascada nenhuma e que esse é mais um daqueles episódios da vida sobre oportunidades que surgem. Se você é das pessoas que prefere ver as coisas através desse prisma, então vamos lá: a minha oportunidade surgiu.

Tudo começou quando, por um motivo aleatório, precisaram mudar as coisas de uma das jornalistas lá do trabalho para outra mesa. Estagiária que sou, me ofereci pra ajudar. Mas aí é que tá a graça da vida: era pra ajudar a carregar livros. Minha vontade era de dizer: sai, ninguém toca! Deixem que eu levo todos - mas eu me conformei a levar a minha humilde pilha de livros sem causa embaraços que comprometessem minha quase recente trajetória na profissão.

Foi aí, quando permiti que o autocontrole pairasse sobre mim, que algo inusitado aconteceu. Parei perto da nova mesa da jornalista e, de repente, não mais que de repente, qual o livro que estava logo de cara na pilha que já tinha sido levada pra mesa nova? Qual? Qual? 

O próprio. Um gato chamado Borges. Eu posso ouvir um miau?

Aí, você me pergunta:

- Andressa, mais suas pernas tremeram? 
- Sim, elas bambearam, não vou negar - eu te respondo. 

Daí você insiste:

- Ficou parecendo que o universo conspirou para esse momento, para que as coisas fossem mudadas de mesa JUSTAMENTE no seu horário?
- Aham!!!!, concordo eu enfaticamente.

Mas a vida, essa engraçadinha, não deixou as coincidências ficarem por aí, não. E é nessa parte que o título deste post vai começar a fazer sentido. Afinal, se você não sabe, Andressa quer dizer corajosa e eu não vou mentir que risos ocasionais me veem aos lábios enquanto eu relembro cenas em que eu grito de medo por causa de baratas que aparecem do nada. Porém, entretanto, ademais, quando eu vi o livro, eu abri mão da minha atitude de decoro que seria algo como: ENTRA EM CENA/- Aqui estão os livros/ SAI DE CENA. Nã nã não. Eu emendei um: Nossa!Nãoacreditoquevocêtemesselivro!Vocêjáleu?Oqueachou?ViresenhasSUPERBOAS!Queromuitoler! E assim, mais de repente do que o de repente anterior, eu estava com o livro nas mãos para ler e a responsabilidade de resenhá-lo para o jornal. 

Nessas horas , não cabem palavras. Deixemos emojis raiz falarem por mim:

\o/
 ¯\_(ツ)_/¯

Eu nem devia estar aqui esbanjando felicidade por algo que provavelmente não vai ser publicado. Mas só de ler o Gato, já estou feliz demais. Tô nas páginas finais e vou produzir a resenha - baita frio na barriga, apesar de eu já ter feito algumas bem bobinhas aqui no blog. 

E, não vou negar: minha impulsividade, apesar de ter me surpreendido, me deixou feliz de ter a oportunidade de honrar meu nome. Tô sentido que não é hora de decepcionar e trechos de Me adora ecoam na minha mente.


Agora é torcer pra que esse sonho tão sonhado se torne realidade perdoem o clichê. 

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Não são de toda inutilidade os fatos...



Ela entrou na loja com um discurso bastante conhecido por nós, vendedores. Depois da minha obrigatória saudação matinal com um ar atencioso que me era imposto pela gerência, mas que eu assumia com muita naturalidade, ela disse:

- Bom dia, procuro uma sapatilha baratinha pra minha filha.

Percebendo o interesse dela pelos sapatinhos da nova coleção da Molekinha, logo mostrei o meio termo: não era tão caro que a inibisse e a fizesse sair da loja alegando mentalmente ser incompreendida, nem tão barato que a insultasse. Ela gostou bastante. Me pediu que pegasse o nº 25, na cor rosa. Olhei na sessão: não tinha; isso significava uma busca no estoque. Depois de encontrá-la e trazê-la em menos de 2 minutos, a menininha experimentou a Molekinha. Em seguida, aquela mãe que ainda não havia me surpreendido, constata:

- Seria melhor o nº 26, porque esse está bem certinho no pé dela.

Concordei, dei uma olhada rápida pela sessão: não havia. Simpaticamente, anunciei que iria   ao estoque buscá-la. Chegando lá, não encontrei na cor que ela queria: voltei com as outras duas cores, que ela repeliu com o argumento de que ‘preferia rosa para a filha’.

Não sei explicar como acontece de mantermos pensamentos internos e uma conversação com outra pessoa ao mesmo tempo, mas, nesse momento, as aulas da universidade vieram a minha mente, me fazendo pensar na reprodução social e refletir superficialmente sobre o papel coadjuvante que eu adquiria naquela hora ao concordar com o argumento daquela mãe. Essa minha concordância também implicava em outra coisa (mais grave do ponto de vista profissional, se minha gerente me estivesse ouvindo): eu não deveria concordar com ela se isso implicasse na cena de uma mãe saindo da loja com duas crianças sem ter comprado nada. E mais: sem que a vendedora que a tivesse atendido tentasse influenciá-la a levar a sapatilha em outra cor porque, afinal de contas, havia o ‘pretinho básico’ que combina com tudo. Somente nessas horas nos era permitido ‘romper’ com o pré-estabelecido social e culturalmente: somente quando isso implicava na decisão do cliente entre comprar e não comprar. Daí estava tudo liberado, desde sapato de mulher pra homem, e nisso eu me confundia: servir aos interesses capitalistas refletidos pela gerente ou aqueles refletidos pela cultura? Fugir de um era necessariamente cair em outro? Nesse dia não é que eu não estivesse com o espírito de vendas ou que eu estivesse com raiva da cliente por ela querer o que ela queria. Eu simplesmente estava deixando as coisas fluírem.

Enfim, voltei ao estoque e lá estava uma Molekinha nº26 na cor rosa. Eu não a havia notado. Voltei com ela e a mãe ficou felicíssima. Acredito que foi nesse momento que ela despertou a atenção em mim, embora eu ainda não tivesse notado que prestava tanta atenção nela.

Continuamos a conversa vendedora-cliente, ela me contando o que fazia na avenida, que queria somente ‘olhar’, mas que gostara daquela sapatilha para a filha. Foi então que percebi que percebia como ela tratava os filhos. Depois, parando pra analisar, fiquei com inveja, uma inveja contente, quase satisfação de ver algo possível: uma mulher feliz e desempenhando tão carinhosamente seu papel de mãe. Confesso, fiquei feliz. Mas não feliz por ver uma mulher reproduzir o papel que lhe era culturalmente imposto, mas feliz pelo jeito. A título explicativo, eu ficaria feliz se fosse um homem também. Me senti tocada por aquela relação humana: a filha tratada com carinho, o filho tratado com carinho, como crianças, crianças amadas, amor expresso no toque leve, na fala, nas ações. Não sei explicar bem, mas me senti contente por fazer parte daquele momento.
Sei que havia um sorvete na mão dela, mas, agora, por mais que eu tente lembrar qual papel o sorvete desempenhou, ele me parece mais como algo que eu imaginei na cena. Mas não. Realmente havia um sorvete.

Filhos comportados. À primeira vista parcial e de longe, como a uns vinte metros de distância, você diria: 'Olha lá, a família Doriana, o pai não aparece porque está trabalhando'. Mas ali, no meu lugar você veria algo mais real, mais animado, como se um sentimento bom estivesse personificado e brincando com as crianças enquanto aquela mãe começava a procurar algo pra ela.

Não procurou muito, foi rápida, parecia direta, certeira: um tipo de cliente ideal, que sabe o que quer, que pega e que não muda de idéia constantemente. Parecia não estar focada nela e não estava. Ela, antes de mim, observava o olhar do filho em direção à chuteira cinza do Neymar. Direcionava um olhar esperto pra alegria do filho enquanto via as mãos do mesmo pairarem sobre seu objeto de desejo. Não evitei o pensamento de uma sociedade consumista: será que era dando algo material ao filho que ela expressaria seu amor, sentimento materno, sei lá? Mas, ainda não era isso. Ainda acho que tinha alguma a coisa a ver com o sorvete. Ela, por sua vez, não evitou a pergunta:

- Você quer essa, filho?

Busquei a numeração, ele experimentou. Nesse meio tempo, ela atendera ao telefone, conversara sobre ter levado o filho ao médico, sobre estar numa loja por ter visto algo pros filhos, etc. Desligou, perguntou o preço da chuteira. O preço do que ela levaria para ela mesma representava 1/4 do preço da chuteira e 1/3 do preço da Molekinha. Contava o dinheiro enquanto dizia ao filho:

- Se não der, eu volto aqui pra buscar pra você. Você quer essa, filho?

O menino afirmava infantilmente e parecia que não iria se decepcionar se o dinheiro não desse, parecia confiar nas promessas da mãe. Ele e a irmã mais nova que ele brincavam no chão, sem fazer bagunça, barulho, sujeira. Brincavam de uma maneira divertida; a mãe, nas palavras e no modo de pronunciá-las, parecia proporcionar aquele estado, parecia que aquilo emanava dela.

Contou o dinheiro, me perguntou quanto ficaria tudo e disse que levaria o do filho, mesmo que tivesse que deixar o dela. Ela não disse nessa intenção de parecer sacrifico, disse numa intenção de um desejo que quisesse cumprir, de uma vontade que era dela: a vontade de ver o filho feliz com o que queria ao invés dela com seu produto. Troca justa? Troca sincera, cheia de um desprendimento radical. Por que não havia naquele espaço e tempo uma outra maneira de demonstrar tanto carinho e afeto? Talvez porque, ali, fosse o lugar mais impróprio para tal e que todo aquele carinho e afeto tenha se moldado e se rendido às formas nas quais podiam se expressar para não sumirem simplesmente, para que não deixassem de acontecer. Não importa se Z representa 1/7 de X+Y pro capital, nessa troca que ela fazia, Z valia muito mais.
Depois de contar o dinheiro e constatar que daria praquilo que os filhos queriam, ela ficou mais contente.

- Nossa, ainda bem.

E riu.

O que aconteceu depois disso foi um gran finale, pulando a parte do pagamento que sempre estraga qualquer reflexão mais humana sobre um acontecimento assim. Ela me agradeceu e eu quis agradecê-la. Dei tchau pras crianças. Ela saiu da loja e acho que foi somente aí que realmente parei pra pensar no sorvete. E acho que era ele quem inspirava aquele ar de ‘carpe diem’. Não, não era ele quem inspirava. Não sei o que era. Só sei que a vi andar pela calçada; ri satisfeita pra mim mesma. Acredito que foi nesse momento que notei que prestara tanta atenção nela.

quarta-feira, 7 de março de 2012

Espetáculo no ônibus...



Não era um dia comum. O ônibus estava parcialmente cheio, mas havia espaço suficiente para que cada passageiro em pé pudesse existir em paz durante o trajeto. E estes ficavam felizes porque, em dias assim, seus três reais adquiriam a capacidade não só de pagar a passagem mas também o espaço.

Mas aquele era um dia diferente e todos ali sabiam disso. E, embora felizes, usavam suas máscaras introspectivas. Ora ou outra havia algum louco que, em dia de chuva, transcrevia nos vidros os pensamentos de um momento insano e tinha a capacidade de atrair para si olhares de reprovação. Ônibus é lugar de cada um ficar na sua, sem chamar atenção e se, por acaso, quiser participar de um momento de escape, esse deveria ser solitário e silencioso. Sem testemunhas. Uma atuação dentro de si com um único telespectador: o próprio que apresenta o espetáculo.

Passageiros, em pé ou sentados, empenhavam seus papéis; mas a vida, pra rir um pouco, decidiu pelo inesperado só pra saber quem ali saberia improvisar.

De repente, num ponto também incomum, uma passageira decide descer. E, bem, não era uma passageira qualquer porque ela estava sentada e deixaria um lugar vago. Rapidamente, todos os assentos transformam-se em cadeiras feitas especialmente para presenciar a cena que se segue.

As cortinas se abrem. Uma luz recai sobre o assento vazio. O ônibus retoma sua atmosfera e seis pessoas se veem obrigadas a improvisar. Improvisam sua exasperação forçada por um lugar que todos ali poderiam muito bem viver sem, obrigado. Um minuto se passa e o lugar continua vago. Algumas das cadeiras especiais percebem e riem - disfarçadamente, claro. O espetáculo vai ser divertido hoje.

As seis pessoas, por ironia, estão relativamente em pé de igualdade em relação a distância do assento, que agora parece brilhar. Lá fora, um sol escaldante e os seis percebem, uns mais cedo, outros nem tanto, que aquele lugar está na sombra. Passam então a observar uns aos outros, com discrição. A plateia vê que seus três reais se multiplicaram: pagam passagem, espaço e diversão num espetáculo improvisado. Não rir passa a ser tarefa quase impossível, mas se esforçam e alguns até já têm seu preferido.

Cinco minutos se foram e a vida, pra deixar mais divertido, não deixará entrar ou descer outro passageiro por um tempo. Uma moça, no auge de sua indiferença, é a primeira a desistir do lugar. Pega um livro e se concentra nele. Restam cinco. Sem que ninguém saiba já há mais dois rapazes que decidiram esnobar o assento. Não, estes não se sentarão. Restam três e 10 minutos se passaram.

Parte da plateia que vê seus preferidos recuarem e começa novas apostas. Mas a vida queria rir hoje e queria rir muito, por isso deixa um passageiro entrar. Novamente quatro, mas o novo passageiro apesar de não demorar muito para entender o que se passa demora para decidir: Sentar ou não sentar: eis a questão. E ele decide que não pode disputar o lugar. É o 4º a desistir e 15 minutos se passam. Impressionante. Quando, de repente, engarrafamento. A plateia desaba em risos. Não, não há motivo para estresse algum.

—Hahahaha.

Percebem, então, que dos três, dois acreditavam aguentar firme até seus respectivos destinos e, ao verem suas expectativas frustradas pelo trânsito, voltam a concorrer. Quase 18o minutos de diversão se passam até que o rapaz de blusa social azul clara decide encerrar o ato e senta-se. E a vida, pra dar mais uma prova de que aquilo era comédia, faz com que os sinais fiquem verdes e o engarrafamento pareça ser mito de algum planeta inabitado situado em alguma galáxia qualquer da imaginação humana. O ponto do rapaz de blusa social azul clara é aquele. E ele desce escondendo o rosto atrás da mochila.

A plateia ri freneticamente , nem se dá mais ao trabalho de fingir qualquer coisa. Aquilo, deixam claro, é comédia e nunca, nunca fora drama ou suspense e, pelo visto, estava longe de ser ação.

—Hahahahahahahahaha!!!

Os dois passageiros em pé que disputavam o lugar, uma garota de bolsa vinho e um rapaz, se olham e , estupefato, ele percebe que ela estava disposta a prolongar tudo aquilo. Ele ri, e a plateia não percebe porque ele riu com os olhos. E senta-se ao perceber que só restava uma pessoa que realmente queria o lugar. E essa pessoa era ele.
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Nos pontos que se seguem todos os desistentes encontram seu rumo. As apostas já foram encerradas e os vencedores repartem o prêmio rumo ao ponto final. Dos que disputaram permanecem no ônibus apenas o rapaz que realmente quis sentar-se e a garota de bolsa vinho que, apesar de todos os lugares que vagaram, escolheu ficar em pé. Porém foi somente nessa última parte do trajeto que a plateia e o rapaz que realmente quis sentar perceberam que, por todo o espetáculo, a garota também fora plateia. Mas o que nunca vão saber é que, desde o começo, ao invés de apostar num vencedor, ela escolhera observar para escrever tudo depois.

sábado, 2 de abril de 2011

Bem-vindos, esse é o Brasil.




Não precisa perguntar, eu confesso... houve sim, na minha vida, um dia em que eu acreditei que as coisas funcionavam nesse país.

Foi no ano passado.

Me convidaram para participar de um campeonato e eu aceitei. Calma, calma... Claro, eu tinha as minhas obrigações, as minhas 'responsabilidades', uma delas até se chamava trabalho... Por que eu aceitei, então? Ah, porque eu quis aceitar. Nesse momento em que aceitei eu queria que todo o resto se danasse... É horrível deixar de viver coisas que você vai guardar sempre consigo por causa dessas responsabilidades que, à propósito, nos são impostas para continuar vivendo. E se fosse para aceitar hoje de novo, eu aceitaria, ponto final, caso esclarecido.

Então, vamos pular já pro dia em questão. Ah, era um campeonato de xadrez...

Eu tinha treinado muito na véspera e me sentia insegura ainda. Coloquei o celular para despertar e eu não me lembro a razão mas ele não tocou... Estava atrasada e sequer sabia (porque eu estava dormindo). De repente, o telefone toca (o telefone, não o celular), eu me levanto bem relaxada 'não é a hora ainda', pensei... A voz do outro lado estava desesperada para falar comigo:

- Então, a sua equipe está te esperando aqui, o ônibus acabou de chegar e sai em 10 minutos. Vem pra cá!

(Pausa pra alguns detalhes: o telefone era sem fio, então eu corri com ele pra ver a hora no microondas; o lugar em que o ônibus estava era uns 20 minutos longe da minha casa; conclusão: não daria mesmo pra chegar lá. A sorte - vamos chamar de sorte nesse caso em especial - é que eu trabalhava e tinha grana pra ir de ônibus.)

- Não dá tempo, eu acabei de acordar...

- Você tem que ir! Sem você sua equipe será desclassificada.

(Pausa 2: Preciso dizer que essa é uma frase chave? Nessa hora eu não só me senti pressionada mas também senti que era minha obrigação salvar minha equipe... Me senti uma supergirl... Eu iria correr contra o tempo e contra o desconhecido - eu não sabia chegar no lugar do campeonato - e eu venceria tudo. Nossa! Que frase poderosa essa, rs...)

- Já estou indo.

Peguei minha roupa, escovei meus dentes, engoli pão e café com leite, peguei uma bolsa-nada-a-ver-com-a-roupa e fui salvar minha equipe. Fiz muitos amigos no ponto de ônibus com minha história. 'Você consegue chegar lá sim, pega ônibus tal, desce no lugar tal e boa sorte no campeonato', 'Obrigada' (eu sempre tão educada!). Entrei no ônibus.

(Pausa 3: Eu fiquei maluca a cada parada do ônibus, quase surtei com o trânsito, fiquei imaginando 'e se eu tivesse ido andando', - e mais coisas imbecis- porque, não se esqueça, eu tinha que salvar minha equipe! Ah, sem contar a tortura de imaginar se me deixariam passar pelo portão com só um simples papelzinho e meu RG).

Cheguei lá. Entrei numa boa. Ninguém nem percebeu que eu tinha chegado, o campeonato só começou duas horas depois. De 5 jogadas eu só ganhei 1 e, mesmo assim ganhamos medalha de prata (minha equipe foi bem melhor que eu, rs).

Sabe, eu poderia ter odiado tudo isso, mas eu até gostei. Nessas duas horas conversei com um monte de gente que eu via todo dia e que nunca tinha parado pra falar, fiquei coleguinha de uma menina muito louca (parecia euzinha naquela idade, nas maneiras), conversei, me diverti... eu só não salvei minha equipe. Ela me salvou, rsrs.
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(Pausa 4: Fiquei sabendo depois que éramos uma das poucas equipes completas. E todas jogaram sem problemas. Esse é o nosso país! - Crítica ou não, foi um dos melhores dias da minha vida. Esse é o nosso país, rs...)
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P.s: Nada de verde-amarelo, minha cor preferida é azul mesmo.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

INFELISMENTE não vai estar dando...


Os céus são testemunhas do gelo que perpassa minha espinha quando ouço ou leio algum erro de português considerado gravíssimo. Claro, sei que nem todo mundo é formado em Letras mas, vamos fazer valer aquele diploma de conclusão do Ensino Médio ou o boletim escolar que comprova que sim, nós tivemos de cinco a seis aulas de Língua Portuguesa por semana por nada menos que 11 anos.

Também não estou aqui para julgar aqueles que, por um pequeno momento escreveram "BERINGELA" porque ficaram na dúvida se era com "J" ou "G" e, muito menos, os erros de digitação que nos fazem escrever "oPlhar" por engano e que, por mais incrível que pareça, passam desapercebidos quando fazemos a nossa revisão.

Claro, quem nunca cometeu um erro de português que atire a primeira pedra.
Mas sim, leitor, estou me referindo àqueles que insistem no erro mesmo quando nós perguntamos, perplexos: 'Pra MIM fazer? Não tem nada errado NISSO, não??'

Porém, o que me levou a postar hoje, com o coração na mão, foi o INFELISMENTE e o gerundismo exacerbado que tive que ouvir (quase surtando) hoje. Eu traduzia mentalmente cada "pra poder estar estudando" ou "pra poder estar aprendendo" que ouvia para manter a minha sanidade.
Aconteceu então que, uma alma que eu julgara bondosa, se pronunciou com essa: "Está faltando um 'FOI' na frase 'você reprovado pelo nosso sistema'. Eu, dentro de mim, exultava. Ah, por favor, perceba o INFELISMENTE!!! Mas... nada, nada mais que isso. Todas as palavras ali ela julgara agradável aos olhos e ouvidos. Criatura maldosa!

É, estou quase tendo um ataque por causa dos papéis que tenho em mãos. E isso se deve ao fato de conter tantos erros ortográficos cometidos por aqueles que se acham os tais. Por aqueles que acham que 11 anos tendo aulas de Língua Portuguesa foram somente pra passar o tempo e acredita[va]m piamente que você não usaria pra mais nada. E daí se está errado? E daí se o passado do verbo dizer é DISSESSE (com 4 S's e não com sc)?

INFELISMENTE, não vai estar dando mais pra aguentar isso calada. Ou falo pra poderem estar parando com isso ou me rendo a essa loucura verbal.
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Gramática, perdoe os Operadores de Telemarketing. Eles não sabem o que falam!

domingo, 11 de abril de 2010

Carpe Diem...


Eu estava em um lugar totalmente desconhecido, mas, em nenhum momento, me senti perdida. Eu não sabia mais o caminho de volta, pois outros pensamentos, desconexos e sem sentido, haviam tomado minha mente. Eu pensava em milhares de coisas e sequer sabia em qual rua deveria seguir. Eu perguntava as pessoas, confiante, dependente, e seguia para um lugar que eu não tinha mais em mente. De repente, meus lábios entoam: Carpe Diem!

A chuva veio. Ela, que havia parado há poucos minutos, retornava forte, decidida a me molhar. E eu somente seguia pra não sei aonde. Cheguei ao meu destino, totalmente molhada: meus pés nadavam dentro do meu tênis. E, mesmo assim, me vinham duas palavras: Carpe Diem!
No ônibus eu segui lendo, totalmente concentrada quando, de repente: Carpe Diem! Fechei o livro por alguns instantes e meu pensamento foi longe. Me dei conta de que eu nunca mais estaria ali, de novo, naquela liberdade, com a chuva gélida, com o tempo todo a meu dispôr, podendo seguir em qualquer rua sem ser escrava do tempo. Eu estava ali e podia tudo. O tempo podeira passar, eu não ligava; se ele quisesse parar, eu não daria a mínima.

Me dando conta disso, olhei perplexa para os lados e vi apreensão nas faces que me rodeavam. Todos ali, praguejando o mal tempo, totalmente submissos ao relógio que traziam em seus pulsos. E eu? Carpe Diem! O dia foi totalmente meu: com meus pensamentos, minha leitura, meu tênis molhado. Eu estava no paraíso terreno e me senti muito bem.

O presente é efêmero, talvez ele sequer exista. O que existe, na verdade, é uma sequência de atos, que tentamos aproveitar. Um dia esse esquema no qual as pessoas vivem, em pleno século XXI, vai bater a minha porta, vai entrar e, talvez, fiquemos sentados no sofá da sala enquanto ele me prenderá em suas teias através de um marketing bem feito. Talvez eu caia nele, como muitos. Talvez não. Só sei que uma pessoa disse uma vez: "a felicidade está nas coisas simples da vida", ela está num dia chuvoso e gélido no qual uma pessoa anda sem rumo. Ela está, também, à nossa porta, basta que ouçamos seu chamado, que a deixemos entrar e...
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... que aproveitemos o dia...

sexta-feira, 19 de março de 2010

Um bolo e uma reflexão...

Entrei no ônibus com uma decisão. Seria alguma pessoa presente ali, naquela aglomeração humana, que receberia o meu triste símbolo de despedida. E foi exatamente o que aconteceu. Um homem se ofereceu para segurar meu embrulho e o ganhou de presente. Ele olhou para mim inúmeras vezes, com olhares perdidos; deve ter pensado que eu estava louca. E ele tinha razão.
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Tudo começou com uma indicação. Fui indicada a ir, todos os dias, na mesma hora e no mesmo lugar por quatro semanas seguidas. Era um curso para complementar meu currículo. E essa foi a minha rotina fiel até hoje. Muitas coisas aprendi, não somente coisas relacionadas ao propósito do curso, porque a gente nunca aprende só isso.

Eu devia levar um bolo. De chocolate (que, a propósito, eu 'não gosto muito' - eufemismo para "odeio"). Muitas coisas haviam ali, naquele endereço que eu segui religiosamente naquelas quatro semanas. Eram deliciosas; porém não havia uma faca. Uma faca para cortar um bolo. Um bolo de chocolate. À propósito, um bolo de chocolate que ficou intocado.

A despedida me pegou. Foi além do que eu esperava, o apego àquela realidade que eu sabia que seria momentânea foi grande demais. Sai de lá com o bolo. Mas sai também com vontade de me livrar dele. Eu passara ali, por aquele caminho, exatas 19 vezes, em direção ao ponto de ônibus. Era a vigésima vez. E a última também. Pensei em dar o bolo para alguém na rua, "alguém que precisasse". Ah, você entendeu! Mas não encontrei, não no vigésimo e último dia. O bolo pesava, estava com os braços doloridos. Eram seis quadras. Seis quadras sem encontrar "alguém que precisasse": ah! que ironia...

Cheguei ao ponto e o ônibus não demorou muito, passei pela catraca e, em menos de dois minutos o bolo era do homem que se ofereceu para segurá-lo. Ele, ironicamente, segurou e, provavelmente, a essa hora, já deve ter comido com sua esposa e filhos ou com seus pais, eu não sei disso pois não o conhecia.

Porém sei que, meu olhar estava distante e eu encontrei muitas pessoas que poderiam merecer aquele bolo. Uma moça com aparência de quem tinha andado o dia todo atrás de emprego; um homem que vende doces em ônibus, fechando os olhos com expressão de cansaço; uma família vendendo serviços gerais no farol e muitas outras que você, provavelmente já deve ter visto inúmeras vezes.

Eu precisei entregar a alguém o símbolo de despedida, e entreguei. Posso ter entregado à pessoa errada, mas não saberei porque não conheço nada a respeito do receptor do bolo. Tenho apenas suposições, à deriva, em minha mente. E sei também que se, não só eu, mas também as pessoas que não gostam muito de bolo de chocolate (só pra começar) fizessem isso uma vez a cada quatro semanas, eu não posso afirmar que se acabaria com a fome do mundo (claro que não! Não sou tão tola assim!) ,mas, pelo menos essas pessoas poderiam ter na memória a imagem de uma pessoa, desconhecida, saindo feliz de um ônibus lotado em direção a sua casa com um bolo nas mãos e um sorriso agradecido no olhar.
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É, eu fiquei olhando o homem atravessar a rua...