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segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Adeus, China - O último bailarino de Mao


Esse foi meu último livro do mês de novembro. E, devo confessar, tenho um interesse especial sobre livros que retratam a vida na sociedade chinesa, tanto do período de Mao quanto da época da reforma e abertura. Me interessa também por ser um país com passado socialista , o que ajuda bastante a entender como se dá, na prática, uma sociedade com sistema diferente do que vivemos no Brasil.

“Adeus, China” é um daqueles livros que vi e, imediatamente, coloquei na minha lista de leitura. Ficou na lista desde 2010 e somente agora pude lê-lo, mas valeu a pena. Vamos então à resenha.

Cunxin é o sexto dos sete filhos do casal Li. Moradores de uma comuna chinesa muito pobre, são da classe dos camponeses que juntamente com os operários e soldados são as classes benquistas da China de Mao Tsé Tung. Nessa época a China, hoje o país mais populoso do mundo, passava pela reforma cultural: todas as influências consideradas capitalistas eram severamente proibidas e punidas.

Através de suas memórias, Cunxin relata nesse livro em primeira pessoa como foi sua infância durante esse período tão singular da história. Um relato que poderíamos nunca saber se não fossem os acasos. Cunxin era fadado a uma vida que não fugiria muito do que o cercava: o trabalho no campo. Seus pais trabalhavam na comuna buscando sustentar os filhos através do cultivo da terra, onde todo dinheiro conseguido era dado ao líder que repartia entre todas as famílias do povoado de acordo com as horas trabalhadas por cada família. Para conseguir uma quantia maior em dinheiro que pudesse sustentar a toda a família, sua mãe também tinha que trabalhar, além de realizar as tarefas domésticas.

Sabemos assim como é viver tendo como preocupação diária apenas a sobrevivência. Comida diversificada era um luxo reservado apenas ao ano novo chinês.

Com essa infância que não apresentava nenhuma perspectiva, uma oportunidade surge. Uma chance em um milhão: Cunxin é escolhido para treinar balé na academia de Madame Mao, onde seria instruído em chinês, matemática, filosofia e dança em seus diversos aspectos.

Sua dedicação não é notável durante os primeiros anos na academia, mas o dever de honrar e não envergonhar o nome da família dão ânimo a Cunxin e o fazem se destacar e, com a ajuda de um professor que enxerga seu potencial, ele passa a amar o balé.

Sua performance é dedicada e muito bem treinada. Com o tempo outras oportunidades surgem e o sonho de ser referência no balé internacional torna-se realidade.

Autor: Li Cunxin 
Editora: Fundamento
IBSN: 9788576761808
Páginas: 400
Edição: 
Ano: 2007

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Instantes


Há dias em que coisas estão destinadas a acontecer. E você sabe antes que, de fato, aconteçam. Não se sabe o quê, nem como, a única certeza que se tem é de que está próximo e de que não há como evitar. Então, você espera. Você simplesmente espera e torce pra estar enganada.

Tudo começou com uma sensação esquisita, como uma espécie de arrepio percorrendo o corpo. Ela desceu a escada rolante pelo lado esquerdo enquanto olhava sem compreender o motivo das pessoas que insistiam em parar do outro lado. No dia seguinte, quando a pressa deu lugar ao cansaço nas pernas, ela entendeu. Naquele dia porém, sem encontrar resposta que justificasse tanta gente parada no lado direito bem em horário de pico, ela olhou com desdém para as pessoas e, depois, bem depois, se lembrou de que foi ali que vira a menininha pela primeira vez.

Quando estamos tão imersos na rotina, esquecemos de ver os detalhes, de dar lugar às sensações e aos avisos. Ela sentiu um frio esquisito e o que fez foi apenas puxar o casaco para mais perto de si. E descartou. 

Parou bem próxima a demarcação do local onde a porta deveria abrir. Enquanto o metrô não chegava, ela olhou para os lados e viu uma mãe que parecia não estar ali, a mente parecia não estar mesmo nesse mundo; mais abaixo ela viu novamente a garotinha, de mãos dadas com a mulher e que devia ter no máximo uns quatro anos. O jeito meigo e tímido da menina despertaram algo nela, mas, de novo, Alíshia descartou as sensações. O metrô estava chegando.

Quinze segundos era o tempo que todos tinham para entrar naquele espaço que persistia todos os dias em desafiar as leis da física. Alíshia entrou, com uma habilidade resultante de anos de experiência. Só teve tempo de olhar pro lado, ao ouvir o soar do apito sinalizando que as portas se fechariam, e ver que entre as portas que se fechavam estava a menininha. Um gélido arrepio esmagou seu corpo, como uma espécie de mau presságio, como se algo inevitável estivesse acontecendo e ela fosse a testemunha que via tudo de camarote.

Há dias em que as coisas estão realmente destinadas a acontecer. Você sente isso desde o começo do dia, mas a rotina é tão esmagadoramente grande que todos os avisos são irrelevantes porque os percebemos como sutilezas. E os confundimos. Depois, você percebe que poderia ter feito algo, que poderia ter agido, mas quando percebe isso já é tarde e você perdeu o instante decisivo. 

Mas, há dias em que a vida quer te fazer acordar e, pra isso, te dá um susto.

Naquele dia Alíshia foi dormir aliviada ao se lembrar do homem segurando as portas com as duas mãos enquanto a mãe puxou a filha pequena para si com uma expressão de que puxava de volta a própria vida. E, por isso, Alíshia sabia que as coisas seriam diferentes para ela como também s riam diferentes para aquela mãe.