O mesmo chão pisado por pés sem rumo, que seguem apressadamente para lugar algum, que vagam pela casa, que vagam pelo olhar da felina que, religiosamente, senta-se disposta a cumprir sua tarefa. Tudo observa a gata e ela tudo observa de volta.
Perto das 7h ela dorme no quarto quente e passeia um passeio sonâmbulo quando pensam que ela acordou. Ventilador, televisão, parede, mala e chão: tudo na casa pensa enquanto humanos dormem.
Quando metade do dia se vai a gata vai também. Vai pro lado, pra encenarem a limpeza do chão. E a felina cumpre seu papel com maestria, sendo ela a única que não precisa fazer-se atriz. Ela incorpora seu papel e vai pro lado.
Mas sempre, sempre perto das 22h, a gata pára feito estátua, senta-se e observa. Observa com olhos cansados de ver, dia após dia, a mesma coisa vaga e vazia impressa na rotina de encenação que ela se põe a observar. E a participar.
Perto das 23h ela busca nos lados alguma resposta minimamente convincente pra inércia que invade todos aqueles que observa. Não encontra nada. Os objetos e móveis da casa sussurram hipóteses erradas na esperança de, um dia, desvendar tal enigma. Mas não há razão para pressa. Amanhã a gata tudo fará novamente e todos terão outra oportunidade para errar.
Agora a gata deita-se. Vai restabelecer-se pois precisa desfilar feito rainha amanhã e a casa é grande, o esforço é grande... E então chega a hora de não tirar os olhos de mim e o relógio soa meia-noite.

