sábado, 23 de agosto de 2014

A palavra felina e as imagens que nada dizem...


Se diz, como se fosse verdade científica provada e irrefutável, que as imagens dizem mais que mil palavras. Os que dizem tal frase, se munem de certeza e convicção, e esquecem-se do quão nulas são as declarações quando generalizadas. E, embora a frase não tenha palavras como "todas" ou "sempre", nela a hipérbole está presente de modo que mal esconde os vestígios deixados pelas duas palavrinhas ocultadas, como se assim a figura de linguagem cumprisse a função de maquiar para dar mais credibilidade ao ditado. Ledo engano. A crença cega nas imagens tem a capacidade de deixar uns tantos mudos, mas tal efeito não chega até aqui.

Este é território das palavras e, aqui, imagens são secundárias e dispensáveis. As palavras, quando querem, alcançam céus nunca dantes desenhados. Às palavras dou licença a toda generalização precisa para se fazerem entendidas, obrigada. Assim como também dou licença a todos os erros de expressões verbais, regionais e afins com o objetivo único de se fazerem plena compreensão. Obrigada, obrigada.

Porque a palavra não precisa se sujeitar às versões individuais. As imagens, quando não compreendidas, nada dizem. Mas as palavras se expressam na fala e na escrita e por isso têm capacidade felina. São palavras-esfinges: decifra-me e mesmo assim devoro-te, rodopio nas tuas lembranças, peso no teu coração, levo comigo teu sono.

As imagens são pura maquiagem do que se conclui. O que persegue não são imagens, pois elas estão associadas às emoções e, há muito, as palavras usaram desse artifício - isso mesmo, o artifício das emoções - para não precisarem se apresentar, às quatro da manhã, com todas as letras, na sua mente perturbada.

A imagem é o delírio louco e pessoal. Junte todos os delírios individuais e o quê você tem? Você não tem nada de concreto. Porque o acesso à mente do outro lhe negado e o sentido se perde. Mas a palavra, quando escrita, quando dita pode ser estudada e levar a uma conclusão com sentido.

A imagem tentou usurpar o artifício da emoção. A emoção não suspendeu o contrato com a palavra, mas aceitou um freela com as imagens. Retornou cachorrinha e banalizada. A emoção banalizada com as imagens, esse foi seu pagamento e assim se findou o trabalho extra.