domingo, 12 de agosto de 2012

Um brinde


Brindemos, senhores!
Ah, não deixemos de brindar!
Brindemos nossa ignorância,
mas antes brindemos nossa inércia...
Brindemos também nossa indiferença.
Ah, brindemos sim!
Brindemos nossa apatia e nosso individualismo,
esse amigo fiel. Um brinde a ele não pode faltar!
Brindemos nossos constantes 'a culpa é sua'.
Aproveitemos e brindemos nosso ' se vira sozinho'...
Brindemos porque, talvez assim, bêbados,
nossos brindes façam sentido.
E vamos todos nos aplaudir.

domingo, 8 de julho de 2012

Surto psicodélico


Alíshia ficou quieta para ouvir o som estranho; se concentrou em não respirar por um momento. Não era um barulho qualquer: era um som baixo, mas periódico. Fez silêncio para tentar ouvi-lo novamente. De novo. De novo. Não se conteve, foi até ele. O que causava tal som? Da cama onde estava olhou para o estojo: parecia vir de lá. Rastejou até ele, que estava a 3 palmos de distância e ele foi aberto subitamente. Pensava em surpreender algo. Nada. Voltou ao seu lugar, mas não havia mais som. Sentiu-se como o homem que abriu com a faca a galinha que punha ovos de ouro a fim de encontrá-la toda dourada dentro. Também fizera uma coisa imbecil: cessara o som. Por culpa dela não havia mais ruído algum e não haveria mais.

Da cama fingia olhar a janela à sua frente e com o canto do olho vigiava o estojo. Havia algo ali, ah, havia sim. Hahaha. Havia algo. É, havia azul. Azul em suas unhas, em sua caneta e blusa. Havia azul no estojo também. E eles conversavam e riam. Riam dela!

Sentiu-se incomodada por ser olhada de forma tão insistente por um abusado azul de estojo! Ela ao menos disfarçava olhando a janela, já ele, ele não!, ele a olhava atrevidamente! Que ousadia! Ser olhada assim por um estojo azul que escondia dela o som. Aliás, um estojo azul claro. Que absurdo!

Buscou refúgio nas outras cores. Olhou a caneta vermelha, o mp4 verde, o pen drive prata, o celular preto, mas os sons e as cores estavam contra ela.

Subitamente um ser de azul entrou no quarto, sentou-se na cama, destroçou o estojo. Os outros azuis pararam de rir e, de repente, o som parecia vir de uma camiseta social qualquer. O ser de azul sem nome próprio saiu, tão de repente quanto entrou. As cores pararam de brincar brincadeiras de mau gosto com a garota, as cores começaram a se comportar. Mas Alíshia ainda pode ouvir sussurros medrosos e debochados entre a krocks azul e o prendedor de roupas azul. Raivaaaa! Explodiu tudo.

Não houve mais risos. Nem sussurros. Nem nada.

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Drummondeando as faces...


Quando eu nasci, um anjo louco,
desses que voam à esmo,
disse: Vai, garota! ser contradição na vida...

O teto desmorona sobre as cabeças
que dirigem corpos vagos.
A tarde se torna certeza cinza
esmagando quaisquer desejos...

O ônibus passa cheio de corpos.
Corpos cansados, sadios ou velhos.
'Pra quê tanto corpo, meu Deus' pergunta a consciência,
mas meu coração,
este teima e não sente mais o discurso...

A mulher atrás da maquiagem
é triste, introspectiva e fraca,
mas conversa alegre.
Diz ter muitos, muitos amigos.
A mulher atrás da maquiagem e em cima do salto.

Meus Deus, por que não me abandona
se sabe que não sou forte,
se sabe que sou falsa...

Rima rima eterna rima
se eu me chamasse Valentina
seria só poesia e não conclusão.
Rima rima eterna rima
mais eterna é minha canção...

Eu não devia escrever isso,
mas encostar a cabeça no ônibus
ouvindo 'Return to innocence'
me deixa como um homem no auge de sua emoção...

domingo, 13 de maio de 2012

Das coisas que não podem esperar...


Depois que eu comecei com isso eu não posso mais parar, simplesmente não consigo. Uma vez alguém me disse que seu desejo era passear e saber ou imaginar - não lembro bem a palavra, mas lembro a essência  e é essa que invoco agora - as histórias escondidas naquelas casinhas que ficam na beira da estrada, como vivem essas pessoas, o que sentem. Eu agora sinto essa ânsia de saber e conhecer mais das pessoas mas, antes de chegar nas casinhas na beira da estrada, encontro histórias urgentes pelo caminho. E com essas histórias eu firmei um compromisso que não quebrarei, pois antes de firmar com elas o fiz comigo mesma. Não é mais uma exigência, capricho ou tarefa, nem apenas questão de vida ou morte; é bem mais que isso. Preciso honrar esse compromisso pra organizar os pensamentos e as sensações, preciso fazê-lo para manter a sanidade.

As pessoas e os seus mundos próprios. Por Deus, não quero dar uma de Clarice escrevendo sobre Macabéa  e enrolar, fugir do foco. Mas tudo isso é necessário, não é exagero; é essencial para fazer sentido e não ficar vago. E isso é, ao mesmo tempo, também a própria história, embora eu desconheça como ela se revela nas entrelinhas. Ela apela para outras histórias presas na minha memória, histórias que eu amarrei aqui na mente e que não deixarei irem pra longe.

Ao lembá-la parece até que recordo daquela música preferida, sabe? Vem toda aquela sensação de alegria por ouvi-la tocando, vêm também sentimentos mistos que a letra invoca junto com a nostalgia da melodia. Somente agora pude perceber: o que eu não quero esquecer é melodia de uma nota só; nota tocada baixa, esquecida, que não entrou pra escala.

Sinceramente, leitor, eu penso que até agora você deve estar esperando lógica e sentido, mas hoje a coerência não foi convidada. O que eu tenho que escrever, de alguma maneira, já está aqui e embora você possa desconhecer eu não me importo. Minha prioridade hoje é outra. E essas palavras já me lembram do que eu quero recordar. E sei que quando precisar voltar aqui, por escolha ou necessidade, essas palavras serão suficientes. Elas me lembrarão de alguém  que só cheguei a conhecer  a melodia da voz, mas que me fez rever e mudar meus conceitos. Realmente, não há padrões que suportem as particularidades... as generalizações erram por isso.

O sistema não prevê variabilidade, muito menos que cada caso é específico e único no seu contexto e significação. Enquanto tentam me fazer jogar com números, tenho plena consciência das minhas ações e que posso interferir, intencionalmente ou não, na vida de muitas pessoas. Interdependência. Não, eu já fiz a minha escolha e um homem que trazia paixão, em vão ou por ironia, em seu nome me ajudou. E embora ele nunca chegue a saber que se dependesse exclusivamente de mim não teria sido daquele jeito, eu sei disso. E sinto muito, muito mesmo por isso não bastar.

Mesmo errante, até aqui sei que estive no lugar certo quando precisei estar. E isso basta ao meu coração e à minha mente.

domingo, 22 de abril de 2012

Doses de mim...



Não é que eu suma
Ou que eu finja que não existe
Só passo dias em coma
Enquanto o drama insiste.

Enquanto roda a vida
E para todo o resto
Começo a minha ida
Buscando o lado inverso

Pra não fazer sentido
Pra ser desfigurado
E  ter um objetivo
Eternamente revoltado

Que mude à vontade
Que se faça só em si
E que acabe em metades
De mil doses de mim.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Não são de toda inutilidade os fatos...



Ela entrou na loja com um discurso bastante conhecido por nós, vendedores. Depois da minha obrigatória saudação matinal com um ar atencioso que me era imposto pela gerência, mas que eu assumia com muita naturalidade, ela disse:

- Bom dia, procuro uma sapatilha baratinha pra minha filha.

Percebendo o interesse dela pelos sapatinhos da nova coleção da Molekinha, logo mostrei o meio termo: não era tão caro que a inibisse e a fizesse sair da loja alegando mentalmente ser incompreendida, nem tão barato que a insultasse. Ela gostou bastante. Me pediu que pegasse o nº 25, na cor rosa. Olhei na sessão: não tinha; isso significava uma busca no estoque. Depois de encontrá-la e trazê-la em menos de 2 minutos, a menininha experimentou a Molekinha. Em seguida, aquela mãe que ainda não havia me surpreendido, constata:

- Seria melhor o nº 26, porque esse está bem certinho no pé dela.

Concordei, dei uma olhada rápida pela sessão: não havia. Simpaticamente, anunciei que iria   ao estoque buscá-la. Chegando lá, não encontrei na cor que ela queria: voltei com as outras duas cores, que ela repeliu com o argumento de que ‘preferia rosa para a filha’.

Não sei explicar como acontece de mantermos pensamentos internos e uma conversação com outra pessoa ao mesmo tempo, mas, nesse momento, as aulas da universidade vieram a minha mente, me fazendo pensar na reprodução social e refletir superficialmente sobre o papel coadjuvante que eu adquiria naquela hora ao concordar com o argumento daquela mãe. Essa minha concordância também implicava em outra coisa (mais grave do ponto de vista profissional, se minha gerente me estivesse ouvindo): eu não deveria concordar com ela se isso implicasse na cena de uma mãe saindo da loja com duas crianças sem ter comprado nada. E mais: sem que a vendedora que a tivesse atendido tentasse influenciá-la a levar a sapatilha em outra cor porque, afinal de contas, havia o ‘pretinho básico’ que combina com tudo. Somente nessas horas nos era permitido ‘romper’ com o pré-estabelecido social e culturalmente: somente quando isso implicava na decisão do cliente entre comprar e não comprar. Daí estava tudo liberado, desde sapato de mulher pra homem, e nisso eu me confundia: servir aos interesses capitalistas refletidos pela gerente ou aqueles refletidos pela cultura? Fugir de um era necessariamente cair em outro? Nesse dia não é que eu não estivesse com o espírito de vendas ou que eu estivesse com raiva da cliente por ela querer o que ela queria. Eu simplesmente estava deixando as coisas fluírem.

Enfim, voltei ao estoque e lá estava uma Molekinha nº26 na cor rosa. Eu não a havia notado. Voltei com ela e a mãe ficou felicíssima. Acredito que foi nesse momento que ela despertou a atenção em mim, embora eu ainda não tivesse notado que prestava tanta atenção nela.

Continuamos a conversa vendedora-cliente, ela me contando o que fazia na avenida, que queria somente ‘olhar’, mas que gostara daquela sapatilha para a filha. Foi então que percebi que percebia como ela tratava os filhos. Depois, parando pra analisar, fiquei com inveja, uma inveja contente, quase satisfação de ver algo possível: uma mulher feliz e desempenhando tão carinhosamente seu papel de mãe. Confesso, fiquei feliz. Mas não feliz por ver uma mulher reproduzir o papel que lhe era culturalmente imposto, mas feliz pelo jeito. A título explicativo, eu ficaria feliz se fosse um homem também. Me senti tocada por aquela relação humana: a filha tratada com carinho, o filho tratado com carinho, como crianças, crianças amadas, amor expresso no toque leve, na fala, nas ações. Não sei explicar bem, mas me senti contente por fazer parte daquele momento.
Sei que havia um sorvete na mão dela, mas, agora, por mais que eu tente lembrar qual papel o sorvete desempenhou, ele me parece mais como algo que eu imaginei na cena. Mas não. Realmente havia um sorvete.

Filhos comportados. À primeira vista parcial e de longe, como a uns vinte metros de distância, você diria: 'Olha lá, a família Doriana, o pai não aparece porque está trabalhando'. Mas ali, no meu lugar você veria algo mais real, mais animado, como se um sentimento bom estivesse personificado e brincando com as crianças enquanto aquela mãe começava a procurar algo pra ela.

Não procurou muito, foi rápida, parecia direta, certeira: um tipo de cliente ideal, que sabe o que quer, que pega e que não muda de idéia constantemente. Parecia não estar focada nela e não estava. Ela, antes de mim, observava o olhar do filho em direção à chuteira cinza do Neymar. Direcionava um olhar esperto pra alegria do filho enquanto via as mãos do mesmo pairarem sobre seu objeto de desejo. Não evitei o pensamento de uma sociedade consumista: será que era dando algo material ao filho que ela expressaria seu amor, sentimento materno, sei lá? Mas, ainda não era isso. Ainda acho que tinha alguma a coisa a ver com o sorvete. Ela, por sua vez, não evitou a pergunta:

- Você quer essa, filho?

Busquei a numeração, ele experimentou. Nesse meio tempo, ela atendera ao telefone, conversara sobre ter levado o filho ao médico, sobre estar numa loja por ter visto algo pros filhos, etc. Desligou, perguntou o preço da chuteira. O preço do que ela levaria para ela mesma representava 1/4 do preço da chuteira e 1/3 do preço da Molekinha. Contava o dinheiro enquanto dizia ao filho:

- Se não der, eu volto aqui pra buscar pra você. Você quer essa, filho?

O menino afirmava infantilmente e parecia que não iria se decepcionar se o dinheiro não desse, parecia confiar nas promessas da mãe. Ele e a irmã mais nova que ele brincavam no chão, sem fazer bagunça, barulho, sujeira. Brincavam de uma maneira divertida; a mãe, nas palavras e no modo de pronunciá-las, parecia proporcionar aquele estado, parecia que aquilo emanava dela.

Contou o dinheiro, me perguntou quanto ficaria tudo e disse que levaria o do filho, mesmo que tivesse que deixar o dela. Ela não disse nessa intenção de parecer sacrifico, disse numa intenção de um desejo que quisesse cumprir, de uma vontade que era dela: a vontade de ver o filho feliz com o que queria ao invés dela com seu produto. Troca justa? Troca sincera, cheia de um desprendimento radical. Por que não havia naquele espaço e tempo uma outra maneira de demonstrar tanto carinho e afeto? Talvez porque, ali, fosse o lugar mais impróprio para tal e que todo aquele carinho e afeto tenha se moldado e se rendido às formas nas quais podiam se expressar para não sumirem simplesmente, para que não deixassem de acontecer. Não importa se Z representa 1/7 de X+Y pro capital, nessa troca que ela fazia, Z valia muito mais.
Depois de contar o dinheiro e constatar que daria praquilo que os filhos queriam, ela ficou mais contente.

- Nossa, ainda bem.

E riu.

O que aconteceu depois disso foi um gran finale, pulando a parte do pagamento que sempre estraga qualquer reflexão mais humana sobre um acontecimento assim. Ela me agradeceu e eu quis agradecê-la. Dei tchau pras crianças. Ela saiu da loja e acho que foi somente aí que realmente parei pra pensar no sorvete. E acho que era ele quem inspirava aquele ar de ‘carpe diem’. Não, não era ele quem inspirava. Não sei o que era. Só sei que a vi andar pela calçada; ri satisfeita pra mim mesma. Acredito que foi nesse momento que notei que prestara tanta atenção nela.

quarta-feira, 7 de março de 2012

Espetáculo no ônibus...



Não era um dia comum. O ônibus estava parcialmente cheio, mas havia espaço suficiente para que cada passageiro em pé pudesse existir em paz durante o trajeto. E estes ficavam felizes porque, em dias assim, seus três reais adquiriam a capacidade não só de pagar a passagem mas também o espaço.

Mas aquele era um dia diferente e todos ali sabiam disso. E, embora felizes, usavam suas máscaras introspectivas. Ora ou outra havia algum louco que, em dia de chuva, transcrevia nos vidros os pensamentos de um momento insano e tinha a capacidade de atrair para si olhares de reprovação. Ônibus é lugar de cada um ficar na sua, sem chamar atenção e se, por acaso, quiser participar de um momento de escape, esse deveria ser solitário e silencioso. Sem testemunhas. Uma atuação dentro de si com um único telespectador: o próprio que apresenta o espetáculo.

Passageiros, em pé ou sentados, empenhavam seus papéis; mas a vida, pra rir um pouco, decidiu pelo inesperado só pra saber quem ali saberia improvisar.

De repente, num ponto também incomum, uma passageira decide descer. E, bem, não era uma passageira qualquer porque ela estava sentada e deixaria um lugar vago. Rapidamente, todos os assentos transformam-se em cadeiras feitas especialmente para presenciar a cena que se segue.

As cortinas se abrem. Uma luz recai sobre o assento vazio. O ônibus retoma sua atmosfera e seis pessoas se veem obrigadas a improvisar. Improvisam sua exasperação forçada por um lugar que todos ali poderiam muito bem viver sem, obrigado. Um minuto se passa e o lugar continua vago. Algumas das cadeiras especiais percebem e riem - disfarçadamente, claro. O espetáculo vai ser divertido hoje.

As seis pessoas, por ironia, estão relativamente em pé de igualdade em relação a distância do assento, que agora parece brilhar. Lá fora, um sol escaldante e os seis percebem, uns mais cedo, outros nem tanto, que aquele lugar está na sombra. Passam então a observar uns aos outros, com discrição. A plateia vê que seus três reais se multiplicaram: pagam passagem, espaço e diversão num espetáculo improvisado. Não rir passa a ser tarefa quase impossível, mas se esforçam e alguns até já têm seu preferido.

Cinco minutos se foram e a vida, pra deixar mais divertido, não deixará entrar ou descer outro passageiro por um tempo. Uma moça, no auge de sua indiferença, é a primeira a desistir do lugar. Pega um livro e se concentra nele. Restam cinco. Sem que ninguém saiba já há mais dois rapazes que decidiram esnobar o assento. Não, estes não se sentarão. Restam três e 10 minutos se passaram.

Parte da plateia que vê seus preferidos recuarem e começa novas apostas. Mas a vida queria rir hoje e queria rir muito, por isso deixa um passageiro entrar. Novamente quatro, mas o novo passageiro apesar de não demorar muito para entender o que se passa demora para decidir: Sentar ou não sentar: eis a questão. E ele decide que não pode disputar o lugar. É o 4º a desistir e 15 minutos se passam. Impressionante. Quando, de repente, engarrafamento. A plateia desaba em risos. Não, não há motivo para estresse algum.

—Hahahaha.

Percebem, então, que dos três, dois acreditavam aguentar firme até seus respectivos destinos e, ao verem suas expectativas frustradas pelo trânsito, voltam a concorrer. Quase 18o minutos de diversão se passam até que o rapaz de blusa social azul clara decide encerrar o ato e senta-se. E a vida, pra dar mais uma prova de que aquilo era comédia, faz com que os sinais fiquem verdes e o engarrafamento pareça ser mito de algum planeta inabitado situado em alguma galáxia qualquer da imaginação humana. O ponto do rapaz de blusa social azul clara é aquele. E ele desce escondendo o rosto atrás da mochila.

A plateia ri freneticamente , nem se dá mais ao trabalho de fingir qualquer coisa. Aquilo, deixam claro, é comédia e nunca, nunca fora drama ou suspense e, pelo visto, estava longe de ser ação.

—Hahahahahahahahaha!!!

Os dois passageiros em pé que disputavam o lugar, uma garota de bolsa vinho e um rapaz, se olham e , estupefato, ele percebe que ela estava disposta a prolongar tudo aquilo. Ele ri, e a plateia não percebe porque ele riu com os olhos. E senta-se ao perceber que só restava uma pessoa que realmente queria o lugar. E essa pessoa era ele.
.
Nos pontos que se seguem todos os desistentes encontram seu rumo. As apostas já foram encerradas e os vencedores repartem o prêmio rumo ao ponto final. Dos que disputaram permanecem no ônibus apenas o rapaz que realmente quis sentar-se e a garota de bolsa vinho que, apesar de todos os lugares que vagaram, escolheu ficar em pé. Porém foi somente nessa última parte do trajeto que a plateia e o rapaz que realmente quis sentar perceberam que, por todo o espetáculo, a garota também fora plateia. Mas o que nunca vão saber é que, desde o começo, ao invés de apostar num vencedor, ela escolhera observar para escrever tudo depois.

quinta-feira, 1 de março de 2012

Olhos de gata à meia-noite...



A gata desfila pela casa como uma rainha. Senta-se, observa e nada escapa a sua atenção. Senta-se num chão que carrega em si marcas de dias iguais, marcas perceptíveis na sujeira que não se dá mais ao trabalho de esconder-se sob o tapete e fica a vista de todos, inclusive da própria gata.

O mesmo chão pisado por pés sem rumo, que seguem apressadamente para lugar algum, que vagam pela casa, que vagam pelo olhar da felina que, religiosamente, senta-se disposta a cumprir sua tarefa. Tudo observa a gata e ela tudo observa de volta.

Perto das 7h ela dorme no quarto quente e passeia um passeio sonâmbulo quando pensam que ela acordou. Ventilador, televisão, parede, mala e chão: tudo na casa pensa enquanto humanos dormem.

Quando metade do dia se vai a gata vai também. Vai pro lado, pra encenarem a limpeza do chão. E a felina cumpre seu papel com maestria, sendo ela a única que não precisa fazer-se atriz. Ela incorpora seu papel e vai pro lado.

Mas sempre, sempre perto das 22h, a gata pára feito estátua, senta-se e observa. Observa com olhos cansados de ver, dia após dia, a mesma coisa vaga e vazia impressa na rotina de encenação que ela se põe a observar. E a participar.

Perto das 23h ela busca nos lados alguma resposta minimamente convincente pra inércia que invade todos aqueles que observa. Não encontra nada. Os objetos e móveis da casa sussurram hipóteses erradas na esperança de, um dia, desvendar tal enigma. Mas não há razão para pressa. Amanhã a gata tudo fará novamente e todos terão outra oportunidade para errar.

Agora a gata deita-se. Vai restabelecer-se pois precisa desfilar feito rainha amanhã e a casa é grande, o esforço é grande... E então chega a hora de não tirar os olhos de mim e o relógio soa meia-noite.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Peligroso...



Conhecer é entrar por uma porta estreita e seguir por um corredor igualmente estreito onde só se pode continuar/completar a passagem se deixar pelo caminho réstias de felicidade que não poderá mais retomar para si.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Sem Motivo...



Eu canto porque o instante existe
e minha vida não é completa, é pouca.
Não sou alegre nem sou triste
- sou louca.

Irmã de coisas fugidias
sinto gozo, tormento e mansidão.
E atravesso meus dias e noites
imersa em solidão.

Se desmorono, me edifico;
se permaneço, me desfaço.
Não sei, talvez...
Talvez eu me seja aos pedaços.

Sei que canto e cantar é tudo
e a eternidade justifica o que me mata.
E sei que tudo acaba num minuto
de forma ingrata.
.
Parafraseando 'Motivo', de Cecília Meireles...

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

O refúgio de Clara...



Abrir a janela a noite sempre fora o refúgio de Clara. Olhar lá fora e fingir que o mundo era colorido, que os problemas eram apenas provas a se superar, que a cidade era linda refletida nos faróis dos carros acesos funcionava como um anestésico para a vida real.

Durante o dia, a rotina de Clara a consumia, mas, com o tempo, ela descobriu uma maneira de fazer tudo mecanicamente para devanear nos intervalos em que não precisasse pensar em absoluto. E assim lavava, varria e cozinhava enquanto percorria campos verdes lutando artes marciais e bancando a mocinha má que, só de birra, salvava o mundo de salto alto e rouge. Assim ia vivendo.

Às vezes, no entanto, ela precisava despertar e se via respondendo 'Não' enquanto voltava para a realidade e descobria que o que a filha lhe perguntara era se ela, Clara, poderia pegar sua lancheira em cima da geladeira. O passo que deveria dar para consertar tais desligamentos era pausar a fuga da heroína ou adiar a viagem perigosa por dentre árvores densas e pegar a lancheira, colocar um copo d'água e dar à filha ou colocar ração pro cachorro.

Com o tempo, as noites na janela e as escapadelas para seu refúgio durante o dia não mais eram suficientes. Foi em um desses dias que teve seu estalo: as histórias todas já haviam sido contadas, agora só poderiam se repetir. Como suportaria isso?

Naquela noite, Clara encenou sua última peça inédita, uma com um final sem igual. E assim, antes de se deixar cair do 14º andar decidiu que esse detalhe também fazia parte. Não pensou na filha, no cachorro ou no marido. 'As histórias se acabaram', foi seu único pensamento.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Anúncio


Procura-se alguém que goste de andar de bicicleta, que goste das coisas simples e não seja uma pessoa vaga. Ambos os sexos. Não para amizade sincera, mas para uma conversa relevante e com conteúdo.

 Quem se encaixar no perfil acima, favor deixar e-mail pra contato nos comentários.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Livro da Vez: Ensaio sobre a cegueira...



Desde que o rádio foi posto de lado pela televisão que, mais recentemente, tem cedido lugar e dividido as honras com outras inovações tecnológicas nos meios de comunicação, passamos de um mundo auditivo para um mundo cada vez mais visual.

Nesse livro, Saramago vai explorar isso. Ele situa o início da narrativa num semáforo. É neste local que a primeira pessoa é acometida por uma espécie de cegueira e fica imersa em uma treva branca. A partir disso, o autor nos fornece materiais para jogar com a nossa imaginação, instintos e intuições humanas.

Não sei dizer ao certo se o texto facilita a empatia com as personagens, mas sei dizer que Saramago situa tudo tudo de maneira clara, com detalhes sugestivos que parecem indicar coisas que vão acontecer antes que elas aconteçam.
Numa tentativa de remediar o caos que se torna a ameaça feita pela treva branca a qual acomete pessoas sem alguma razão conhecida, a única coisa que se sabe é que o contato direto pode ser fatal, levando também à cegueira. Dessa forma as vítimas vão se multiplicando rapidamente. A solução encontrada pelos governantes do país é o isolamento dos cegos econtaminados, uma espécie de quarentena num hospício desativado. É, inicialmente, nesse espaço que se desenrola a tese do autor. E é também nesse espaço que os isolados têm que se organizar à sua maneira, sendo supridos apenas com itens básicos e comida que são racionados, totalmente dependentes dos soldados que os vigiam e são separados deles pelo medo do desconhecido.

Um traço do livro é o fato das personagens não terem nomes, sendo assim diferenciadas por algumas caraterísticas físicas ou por alguma posição em relação a um grupo ou a uma pessoa. Além disso, há algumas das características estilísticas do autor, como os parágrafos longos que, muitas vezes, duram páginas e que contêm discursos diretos dentro dos discursos indiretos, com pontuações limitadas a pontos e vírgulas.

A proposta de um outro mundo não só para ela e para os seus, mas para toda a humanidade é ameaça constante: um mundo que deverá recomeçar a partir do que não se pode ver. (Isso se a ponte com a civilização humana, sua história, invenções etc - que é representada por essa mulher - se romper).
O livro guarda consigo o mistério. Não revela causas ou o motivo de haver uma exceção à regra. Não revela porque apenas uma mulher permanece enxergando o mundo enquanto os demais estão imersos no branco total.

A pergunta é: esse mundo, tal como o conhecemos, sobreviveria sem a visão? Saramago responde claramente: Não. E mais, ele mostra o que o mundo se tornaria se, subitamente, fosse privado dela.
Será que ele defende tudo isso, um mundo totalmente ajustado e focado em apenas um sentido? Ou simplesmente mostra o que está dado, isso com o que concordamos e reproduzimos?
"Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara."Eis o convite do autor. Leia e responda a si mesmo.
.
Indicado.

sábado, 28 de janeiro de 2012

Sua Majestade, o Chinelo...


Maior conhecedor das ruas desta cidade não há. Desde que fora feito para cumprir uma função de importância ímpar na vida de pessoas tão diferentes, ele tem se resignado a ser pisado, suportando sobre si o peso das existências vãs. Futilidades o obrigavam a se mascarar em várias formas que não levavam em conta apenas o conforto de pés pecadores, mas as exigências e frescuras de endinheirados. Bah!, se resignava por falta de opção. Ele por si gritaria, mas este surto que rompe com a lógica não lhe era permitido no mundo real. Gritava, então, na ficção:

—Ahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh...

E xingava no virtual:

—@'*%#**$¨@'

Se expressava e via seus sentimentos materializados nos olhos de nuvens distantes:

—Chove hoje.

É, chove hoje. Chuva de raiva, ódio, rancor e decepção. Seres superiores?, zombava em pensamento. Não. Seres achistas apenas. Que acham, não têm certeza. Acham que vassouras são mudas, que elas não falam. Acham que sapatos pisados, seus parentes próximos, suportam tudo com quietude de matéria prima morta. Acham que chuva é fenômeno meteorológico e nada mais. Mas estão errados no tempo presente, perfeita e imperfeitamente errados no pretérito e estarão errados no mais distante dos futuros.

Chuvas são sentimentos materializados da realeza usurpada da terra. E com a palavra Sua Majestade, o Chinelo.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Cinco minutos...



Ou 'Estatísticas sobre morte por atropelamento em avenidas..."

O relógio despertara e ela disse, sonolenta:

—Mais dez minutos.

Ela já sabia, cinco minutos não bastariam. Dormia tão bem quando, de repente, resolve pensar. O resultado foi um pensamento também sonolento, mas racional.

'Quanto tempo tem passado?'... Rapidamente lhe veio à mente que o tempo necessário, ou melhor, suficiente e indispensável para um bom descanso sempre nos parece perfeito, mas quando nos damos conta ele acelerou e segue a 100 Km/h ultrapassando nossas expectativas... relatividades. Olhou o relógio e comprovou que estava mais que certa, estava atrasada: 7h30!

Devia estar no ponto as 7h50, a caminhada até lá consumia 20 minutos. Definitivamente, estava atrasada.
Levantou-se num jato. 'Quem sabe avançar o horário do relógio?'. Não, isso nunca funcionava, pois sempre pensava na vantagem temporal que tinha com esse método e o gastava dormindo. Sempre atrasada. Mas nunca tanto assim. Escovou os dentes, lavou o rosto, colocou a roupa, prendeu o cabelo e não havia tempo pra base, lápis, batom ou blush. Engoliu café preto. No espelho uma constatação: ainda com cara de sono. Mas também, tudo tão rápido. Seu rosto mal abandonara a expressão sonolenta para acolher a de pressa, mas ela tinha que ir.

Saiu de casa, encostou a porta. A chave. 'A chave?'. A bolsa sempre guarda a chave. 'A bolsa?'. Entrou correndo, pegou a bolsa (esses segundos poderiam lhe custar um ônibus com horário pra passar) e, dentro dela a chave. Trancou a porta. 7h45. Vinte minutos ainda a separavam do ponto. 'Meu Deus', pensou. Chegaria ao ponto as 8h05, o ônibus passava de 10 em 10 minutos. Pegaria o de 8h10. Definitivamente 20 minutos de atraso eram inaceitáveis. 'Não, bem mais!', o trânsito aumentava conforme o horário passava.
Continuou apressando o passo. Apressando o passo e pensando na passarela que bem poderia lhe consumir uns cinco minutos todos os dias. 'Um dia só não faz mal... Se eu conseguisse pegar o das 8h...'
.
Não. Ela não conseguiria.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Essência...



Tem-se algo dentro de si sempre de bom,
alguma coisa pela qual se vale viver
e fazer o sacrifício de respirar, de conviver
de existir para todos em alto e bom som...

E se essa coisa não vieres tu a saber
conforma-te com teu futuro esquecimento,
mas aprenda algo de bom desse momento
para que ele venha de algo te valer...

E se não quiseres compreender
os caminhos que a tua vida toma
e os mares pelos quais ela navega

Resigna-te em fazer-se entender
que a tua vida é um estado em coma.
E que te vá para o diabo que o carrega...

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Wonderful life...



Constatação: há músicas com as quais você não pode treinar tradução porque se perde analisando o eu lírico...

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Metalinguagem...


Escrever sobre escrever e sobre como escrever, sobre o quê escrever... Simplesmente escrever sobre isso que tanto me custa, que tanto toma de mim...