quarta-feira, 21 de abril de 2010

Proposta Machadiana...


(...) "Pois, senhores, nada me consola daquele soneto que não fiz. Mas, como eu creio que os sonetos existem feitos, como as odes e os dramas, e as demais obras de arte, por uma razão de ordem metafísica, dou esses dois versos ao primeiro desocupado que os quiser. Ao domingo, ou se estiver chovendo, ou na roça, em qualquer ocasião de lazer, pode tentar ver se o soneto sai. Tudo é dar-lhe uma idéia e encher o centro que falta."
Machado de Assis (Dom Casmurro - cap. LV - 'O Soneto').

Eis, então, minha tentativa:

A TROCA

Oh! flor do céu! oh! flor cândida e pura!
Em meu coração uma flecha te acerta,
Sobe-me à cabeça, perpassas a porta aberta:
Sinta-te à vontade para realizar tua loucura...

Minh'alma encontra-te imersa em candura
E guia-te à mente vazia e deserta
Deixando-me a tal realidade incerta
À espera, impassível, da cena futura...

O vento anuncia tua altiva chegada
A natureza participa, totalmente extasiada
O que pode, leva consigo e, em seguida espalha...

Ao fim do ato, percebo-te resignada
Para ti o "PERMANECE" não significa mais nada:
Ganha-se a vida, perde-se a batalha!...

Desses 14 versos, dois deles - o primeiro e o último - são de autoria de Machado de Assis. Fica então minha contribuição com a Literatura Brasileira...

quinta-feira, 15 de abril de 2010

INFELISMENTE não vai estar dando...


Os céus são testemunhas do gelo que perpassa minha espinha quando ouço ou leio algum erro de português considerado gravíssimo. Claro, sei que nem todo mundo é formado em Letras mas, vamos fazer valer aquele diploma de conclusão do Ensino Médio ou o boletim escolar que comprova que sim, nós tivemos de cinco a seis aulas de Língua Portuguesa por semana por nada menos que 11 anos.

Também não estou aqui para julgar aqueles que, por um pequeno momento escreveram "BERINGELA" porque ficaram na dúvida se era com "J" ou "G" e, muito menos, os erros de digitação que nos fazem escrever "oPlhar" por engano e que, por mais incrível que pareça, passam desapercebidos quando fazemos a nossa revisão.

Claro, quem nunca cometeu um erro de português que atire a primeira pedra.
Mas sim, leitor, estou me referindo àqueles que insistem no erro mesmo quando nós perguntamos, perplexos: 'Pra MIM fazer? Não tem nada errado NISSO, não??'

Porém, o que me levou a postar hoje, com o coração na mão, foi o INFELISMENTE e o gerundismo exacerbado que tive que ouvir (quase surtando) hoje. Eu traduzia mentalmente cada "pra poder estar estudando" ou "pra poder estar aprendendo" que ouvia para manter a minha sanidade.
Aconteceu então que, uma alma que eu julgara bondosa, se pronunciou com essa: "Está faltando um 'FOI' na frase 'você reprovado pelo nosso sistema'. Eu, dentro de mim, exultava. Ah, por favor, perceba o INFELISMENTE!!! Mas... nada, nada mais que isso. Todas as palavras ali ela julgara agradável aos olhos e ouvidos. Criatura maldosa!

É, estou quase tendo um ataque por causa dos papéis que tenho em mãos. E isso se deve ao fato de conter tantos erros ortográficos cometidos por aqueles que se acham os tais. Por aqueles que acham que 11 anos tendo aulas de Língua Portuguesa foram somente pra passar o tempo e acredita[va]m piamente que você não usaria pra mais nada. E daí se está errado? E daí se o passado do verbo dizer é DISSESSE (com 4 S's e não com sc)?

INFELISMENTE, não vai estar dando mais pra aguentar isso calada. Ou falo pra poderem estar parando com isso ou me rendo a essa loucura verbal.
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Gramática, perdoe os Operadores de Telemarketing. Eles não sabem o que falam!

domingo, 11 de abril de 2010

Carpe Diem...


Eu estava em um lugar totalmente desconhecido, mas, em nenhum momento, me senti perdida. Eu não sabia mais o caminho de volta, pois outros pensamentos, desconexos e sem sentido, haviam tomado minha mente. Eu pensava em milhares de coisas e sequer sabia em qual rua deveria seguir. Eu perguntava as pessoas, confiante, dependente, e seguia para um lugar que eu não tinha mais em mente. De repente, meus lábios entoam: Carpe Diem!

A chuva veio. Ela, que havia parado há poucos minutos, retornava forte, decidida a me molhar. E eu somente seguia pra não sei aonde. Cheguei ao meu destino, totalmente molhada: meus pés nadavam dentro do meu tênis. E, mesmo assim, me vinham duas palavras: Carpe Diem!
No ônibus eu segui lendo, totalmente concentrada quando, de repente: Carpe Diem! Fechei o livro por alguns instantes e meu pensamento foi longe. Me dei conta de que eu nunca mais estaria ali, de novo, naquela liberdade, com a chuva gélida, com o tempo todo a meu dispôr, podendo seguir em qualquer rua sem ser escrava do tempo. Eu estava ali e podia tudo. O tempo podeira passar, eu não ligava; se ele quisesse parar, eu não daria a mínima.

Me dando conta disso, olhei perplexa para os lados e vi apreensão nas faces que me rodeavam. Todos ali, praguejando o mal tempo, totalmente submissos ao relógio que traziam em seus pulsos. E eu? Carpe Diem! O dia foi totalmente meu: com meus pensamentos, minha leitura, meu tênis molhado. Eu estava no paraíso terreno e me senti muito bem.

O presente é efêmero, talvez ele sequer exista. O que existe, na verdade, é uma sequência de atos, que tentamos aproveitar. Um dia esse esquema no qual as pessoas vivem, em pleno século XXI, vai bater a minha porta, vai entrar e, talvez, fiquemos sentados no sofá da sala enquanto ele me prenderá em suas teias através de um marketing bem feito. Talvez eu caia nele, como muitos. Talvez não. Só sei que uma pessoa disse uma vez: "a felicidade está nas coisas simples da vida", ela está num dia chuvoso e gélido no qual uma pessoa anda sem rumo. Ela está, também, à nossa porta, basta que ouçamos seu chamado, que a deixemos entrar e...
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... que aproveitemos o dia...