domingo, 22 de maio de 2016

E


Eu não sei mais me ser. A sensação é a de que falta algo. Eu, penso comigo, sei o que é que me deixa esse buraco no peito. Mas não pode ser esse algo tão simples e tão estritamente vetado que desnorteia toda uma vida humana. E, ao mesmo tempo em que me agarro à ideia de que a ausência deste simples capricho é o motor desse desaprendimento de viver, receio descobrir em mim outras ausências.

E, mesmo sentada, me remexo numa impaciência de quem espera algo que está para chegar. No entanto, quando penso que esse algo não tem data e nem horário para entrega, me sinto masoquista - como quem sofre voluntariamente um sofrimento que não precisaria existir.

Eu só queria gritar tudo isso, queria poder desabafar esse desejo que sufoco há meses com alguém. Mas, que alguém? Quem seria digno de carregar esse fardo com discrição? Não há ninguém capacitado para o cargo de confidente de um segredo camuflado apenas de intenções.

Se eu quero? A resposta é sim e não. Se quero contar, se quero tentar, se quero arriscar, se quero ousar, amar, cantar, aprender, viver? A resposta para cada uma das perguntas é, ao mesmo tempo, sim  e não. A resposta é a minha indecisão. E o que aprendi nesses últimos anos é que minha indecisão serve apenas para me impossibilitar de avançar, retroceder ou andar em qualquer direção que seja.

É essa sensação de peso dentro de mim que me agita, me desnorteia, me deixa apreensiva e nervosa. Estou paralisada e, nessa não-ação eu sinto tudo tão intensamente que o mundo parece me pregar peças.

O que eu faço? Não posso esperar uma resposta se eu não tenho a quem perguntar. E se eu mesma me responder? O que eu responderia a alguém nessa situação? É difícil pensar e formular respostas com esse peso dentro, com essa sensação que parece a infelicidade chegando. Certamente, eu me desencorajaria. Mas aonde arranjar força? Força para agir, apenas?

Me sinto no limbo. Estou incapacitada de sair de onde estou. Será que vou conseguir aguentar firme enquanto essa tempestade interior se exterioriza e passa por mim? Será que eu vou querer ir contra algo que é fruto das minhas próprias ideias? Infelizmente não me conheço o suficiente para responder a isso.

segunda-feira, 2 de maio de 2016

Intenção


Não posso comigo quando você está
E, ao mesmo tempo, eu quero e posso
E a menor possibilidade de algo nosso
É tão real que eu a quero prolongar

Mas a realidade é gerada pela imaginação
E somente uma das partes a concebe
E a nina, e a aconchega e a percebe
O suficiente para essa encenação

E no vacilo escasso de um momento
Eu ardo, eu queimo, eu tento
Na esperança fruto de uma ideia à toa

E essa sugestão que é ré e feto
Eu sufoco, eu afogo, eu veto
Mas a carrego comigo, da popa à proa