quinta-feira, 12 de abril de 2012

Não são de toda inutilidade os fatos...



Ela entrou na loja com um discurso bastante conhecido por nós, vendedores. Depois da minha obrigatória saudação matinal com um ar atencioso que me era imposto pela gerência, mas que eu assumia com muita naturalidade, ela disse:

- Bom dia, procuro uma sapatilha baratinha pra minha filha.

Percebendo o interesse dela pelos sapatinhos da nova coleção da Molekinha, logo mostrei o meio termo: não era tão caro que a inibisse e a fizesse sair da loja alegando mentalmente ser incompreendida, nem tão barato que a insultasse. Ela gostou bastante. Me pediu que pegasse o nº 25, na cor rosa. Olhei na sessão: não tinha; isso significava uma busca no estoque. Depois de encontrá-la e trazê-la em menos de 2 minutos, a menininha experimentou a Molekinha. Em seguida, aquela mãe que ainda não havia me surpreendido, constata:

- Seria melhor o nº 26, porque esse está bem certinho no pé dela.

Concordei, dei uma olhada rápida pela sessão: não havia. Simpaticamente, anunciei que iria   ao estoque buscá-la. Chegando lá, não encontrei na cor que ela queria: voltei com as outras duas cores, que ela repeliu com o argumento de que ‘preferia rosa para a filha’.

Não sei explicar como acontece de mantermos pensamentos internos e uma conversação com outra pessoa ao mesmo tempo, mas, nesse momento, as aulas da universidade vieram a minha mente, me fazendo pensar na reprodução social e refletir superficialmente sobre o papel coadjuvante que eu adquiria naquela hora ao concordar com o argumento daquela mãe. Essa minha concordância também implicava em outra coisa (mais grave do ponto de vista profissional, se minha gerente me estivesse ouvindo): eu não deveria concordar com ela se isso implicasse na cena de uma mãe saindo da loja com duas crianças sem ter comprado nada. E mais: sem que a vendedora que a tivesse atendido tentasse influenciá-la a levar a sapatilha em outra cor porque, afinal de contas, havia o ‘pretinho básico’ que combina com tudo. Somente nessas horas nos era permitido ‘romper’ com o pré-estabelecido social e culturalmente: somente quando isso implicava na decisão do cliente entre comprar e não comprar. Daí estava tudo liberado, desde sapato de mulher pra homem, e nisso eu me confundia: servir aos interesses capitalistas refletidos pela gerente ou aqueles refletidos pela cultura? Fugir de um era necessariamente cair em outro? Nesse dia não é que eu não estivesse com o espírito de vendas ou que eu estivesse com raiva da cliente por ela querer o que ela queria. Eu simplesmente estava deixando as coisas fluírem.

Enfim, voltei ao estoque e lá estava uma Molekinha nº26 na cor rosa. Eu não a havia notado. Voltei com ela e a mãe ficou felicíssima. Acredito que foi nesse momento que ela despertou a atenção em mim, embora eu ainda não tivesse notado que prestava tanta atenção nela.

Continuamos a conversa vendedora-cliente, ela me contando o que fazia na avenida, que queria somente ‘olhar’, mas que gostara daquela sapatilha para a filha. Foi então que percebi que percebia como ela tratava os filhos. Depois, parando pra analisar, fiquei com inveja, uma inveja contente, quase satisfação de ver algo possível: uma mulher feliz e desempenhando tão carinhosamente seu papel de mãe. Confesso, fiquei feliz. Mas não feliz por ver uma mulher reproduzir o papel que lhe era culturalmente imposto, mas feliz pelo jeito. A título explicativo, eu ficaria feliz se fosse um homem também. Me senti tocada por aquela relação humana: a filha tratada com carinho, o filho tratado com carinho, como crianças, crianças amadas, amor expresso no toque leve, na fala, nas ações. Não sei explicar bem, mas me senti contente por fazer parte daquele momento.
Sei que havia um sorvete na mão dela, mas, agora, por mais que eu tente lembrar qual papel o sorvete desempenhou, ele me parece mais como algo que eu imaginei na cena. Mas não. Realmente havia um sorvete.

Filhos comportados. À primeira vista parcial e de longe, como a uns vinte metros de distância, você diria: 'Olha lá, a família Doriana, o pai não aparece porque está trabalhando'. Mas ali, no meu lugar você veria algo mais real, mais animado, como se um sentimento bom estivesse personificado e brincando com as crianças enquanto aquela mãe começava a procurar algo pra ela.

Não procurou muito, foi rápida, parecia direta, certeira: um tipo de cliente ideal, que sabe o que quer, que pega e que não muda de idéia constantemente. Parecia não estar focada nela e não estava. Ela, antes de mim, observava o olhar do filho em direção à chuteira cinza do Neymar. Direcionava um olhar esperto pra alegria do filho enquanto via as mãos do mesmo pairarem sobre seu objeto de desejo. Não evitei o pensamento de uma sociedade consumista: será que era dando algo material ao filho que ela expressaria seu amor, sentimento materno, sei lá? Mas, ainda não era isso. Ainda acho que tinha alguma a coisa a ver com o sorvete. Ela, por sua vez, não evitou a pergunta:

- Você quer essa, filho?

Busquei a numeração, ele experimentou. Nesse meio tempo, ela atendera ao telefone, conversara sobre ter levado o filho ao médico, sobre estar numa loja por ter visto algo pros filhos, etc. Desligou, perguntou o preço da chuteira. O preço do que ela levaria para ela mesma representava 1/4 do preço da chuteira e 1/3 do preço da Molekinha. Contava o dinheiro enquanto dizia ao filho:

- Se não der, eu volto aqui pra buscar pra você. Você quer essa, filho?

O menino afirmava infantilmente e parecia que não iria se decepcionar se o dinheiro não desse, parecia confiar nas promessas da mãe. Ele e a irmã mais nova que ele brincavam no chão, sem fazer bagunça, barulho, sujeira. Brincavam de uma maneira divertida; a mãe, nas palavras e no modo de pronunciá-las, parecia proporcionar aquele estado, parecia que aquilo emanava dela.

Contou o dinheiro, me perguntou quanto ficaria tudo e disse que levaria o do filho, mesmo que tivesse que deixar o dela. Ela não disse nessa intenção de parecer sacrifico, disse numa intenção de um desejo que quisesse cumprir, de uma vontade que era dela: a vontade de ver o filho feliz com o que queria ao invés dela com seu produto. Troca justa? Troca sincera, cheia de um desprendimento radical. Por que não havia naquele espaço e tempo uma outra maneira de demonstrar tanto carinho e afeto? Talvez porque, ali, fosse o lugar mais impróprio para tal e que todo aquele carinho e afeto tenha se moldado e se rendido às formas nas quais podiam se expressar para não sumirem simplesmente, para que não deixassem de acontecer. Não importa se Z representa 1/7 de X+Y pro capital, nessa troca que ela fazia, Z valia muito mais.
Depois de contar o dinheiro e constatar que daria praquilo que os filhos queriam, ela ficou mais contente.

- Nossa, ainda bem.

E riu.

O que aconteceu depois disso foi um gran finale, pulando a parte do pagamento que sempre estraga qualquer reflexão mais humana sobre um acontecimento assim. Ela me agradeceu e eu quis agradecê-la. Dei tchau pras crianças. Ela saiu da loja e acho que foi somente aí que realmente parei pra pensar no sorvete. E acho que era ele quem inspirava aquele ar de ‘carpe diem’. Não, não era ele quem inspirava. Não sei o que era. Só sei que a vi andar pela calçada; ri satisfeita pra mim mesma. Acredito que foi nesse momento que notei que prestara tanta atenção nela.

4 comentários:

  1. Quando li, algumas coisas me vieram a mente. Claro, é de despertar felicidade o sentimento materno verdadeiro, e a confiança e carinho recíprocos entre ela e os filhos, depois de presenciarmos tantas cenas de crianças jogadas ao chão dos shoppings berrando por que querem um brinquedo. Mas me entristece um pouco ao perceber que no ponto em que fomos parar, a mãe representava esse sentimento tão belo por meio das compras. Não que faltassem outras demonstrações, mas me é meio revoltante que a comprar algo tenha acabado por resultar em associação ao amor.
    Maldito capitalismo, maldita sociedade, meu professor de sociologia vai sofrer muito na próxima aula com minha revolta. '-'
    Bom texto, como sempre. Ainda bem que voltou. (:

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  2. Que texto bonito e bem construído!!!

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  3. Tava aqui olhando os blogs que eu sigo (nem sempre dá tempo de acompanhar todos) e decidi abri o seu quando vi que tinha um post relativamente recente. Olhei o tamanho do texto e pensei, "que preguiça de ler isso tudo", mas fui lendo, e a leitura foi fluindo, as reflexões que surgem sempre que lemos algo bom foram brotando, e ao fim eu vi que valeu a pena o tempo que gastei em lê-lo. Parabéns.

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  4. Lembrei-me de minha mãe. Ela sempre me fez muito feliz. Muitas vezes deixou de fazer algo por ela pra fazer algo por mim ou meus irmãos. É realmente ruim a ideia de presentear para representar o amor, mas acredito que não tenha sido ido o acontecido com essa família ou com a minha. O que senti foi o desejo de ver feliz, de sentir-se bem. Fiquei emocionado com a leitura e encantado com seu dom de escrever.

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