terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Algo está cambiando



Siempre hay algo más
Que a simple vista no se ve
VENEGAS, Julieta

Todos crescem, todos mudam. Essa bem que pode ser uma daquelas verdades universais. Porém, por mais universal que essa verdade pareça ser, a impressão é que o universo faz questão de que nós sejamos exceção. "A mudança está no outro, não em mim", é fácil se enganar com esse pensamento. 

Esquecemos, ou preferimos esquecer que a mudança é algo pessoal e constante. Não é só com o fulaninho que foi viajar, estudar fora etc. Quem fica consigo mesmo todos os dias, por mais que se observe bem, também está mudando. E o engraçado é que aquilo que antes fazia parte do que acreditávamos ser, e que agora nem lembramos mais, ainda permanece vivo na mente de outros alguéns.

Porém, por mais óbvia que essa nossa mudança seja para quem nos observa de tempos em tempos, ela é verdadeiramente chocante para nós. "Não, eu não mudei. Foi você quem mudou!". Afinal, essa vida diária com a gente mesmo tem lá suas consequências para a percepção, e assim nossa mudança nunca é aquela coisa abrupta que quem está fora observa com facilidade,

Na realidade, o nosso eu do ontem literal é, para nós, um gêmeo univitelino do nosso eu de hoje. Daí, quando nós damos conta das nossas mudanças, a base de comparação nunca é o ontem literal, mas o ontem figurado. É o passado, no sentido mais comum. E a constatação pura do rio de Heráclito.

E por mais linda que seja a singularidade do momento, a certeza de que ele é único - afinal, já cantava Lulu Santos que "nada do que foi será de novo do jeito que já foi um dia"-, o momento em que nos damos conta de que a não repetição da vida implica uma não repetição de nós mesmos, esse momento, meu amigo, é belo na teoria e inquietante na prática.

E agora, poderemos confiar em nós mesmos? Em nossos planos, decisões, desejos, motivações? E se o meu eu de amanhã for algo que eu não consiga aceitar? São as inquietações de se aceitar como ser mutante.

Mas nós aceitamos, embora seja uma aceitação velada e diária. Concordamos, cedemos e, de repente, ouvimos frases do tipo "você tá mudada" e a resposta automática que vem à mente é "não, não tô". Mas, enfim, se todo mundo muda, então acho que eu posso me permitir me perceber mudada.

Nos permitimos uma mudança a partir do olhar do outro e queremos, mas queremos renegar as transformações do eu a um estágio apenas físico. "Foi só o cabelo que eu cortei, nada demais", dizemos para poder pontuar as mudanças, contabilizá-las certinho para que não dê nada errado no nosso balancete depois.

Mas, mesmo com essas negativas, se deparar com seu eu interior antigo - seja nas páginas de um diário ou nos primeiros posts de um blog que te acompanha há longa data - é um verdadeiro soco no estômago. E não gostamos de socos, eles doem.

2 comentários:

  1. Que texto mais lindo! Em algumas partes conseguiu me descrever perfeitamente. Gosto do quanto ler alivia um pouco a mente.

    Beijinho!

    http://quistecontarblog.blogspot.com.br/ (Flávia do coletivo de blogueiras)

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  2. Oie tudo bem ? Adorei o seu blog, parabéns pelo texto. Beijos da Ingrid - coletivo
    www.ingridbabicsakchannel.com

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