sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Crônica de quinta sobre um término hipotético


Foi inevitável: eles terminaram. Ela saiu da casa deixando os móveis, a coleção de xícaras de café e os sentimentos, todos empoeirados. Era seu dia de fazer faxina na casa, mas isso não importava mais. Ele ficou na sala mais chateado por ter que dar um jeito naquela bagunça do que na própria vida.

Ela virou a esquina, rumo ao ponto. O ônibus já estava vindo, ela havia checado no aplicativo quando estava no banheiro fazendo hora pra sair de vez da sua recente vida antiga.

Ele levantou da cadeira em que estivera sentando olhando um lixo feito de papel velho e pó empurrados para debaixo da estante de livros. "Inacreditável", disse. Havia visto ela empurrar o lixo ali pra baixo há 2 semanas, por isso, no seu dia de fazer faxina, ele ignorou. "Inacreditável!", disse novamente, agora balançando a cabeça em negativa. Até isso ela achava que era responsabilidade dele: o lixo que ela mesma esconde debaixo da estante. Definitivamente era o fim.

Ela subiu no ônibus menos de 5 minutos depois de sair de casa. Reparou que sua blusa tinha a mesma mancha que ela havia pedido pra que ele esfregasse com  um pouco mais de vigor na semana passada, no dia dele de ajeitar as coisas. Pelo visto, não havia feito. Agora, além de sair de casa, ela tinha que andar esculhambada pela rua, como quem não tem coragem de lavar a própria roupa com decência. Era o fim, estava claro.

E por conta desses detalhes, que em situações assim são verdadeiros desaforos, eles não se falaram mais. Um não ligou pro outro, nem mandaram mensagens pelo WhatsApp. Deixaram de se seguir nas redes sociais, mudaram o status de "em um relacionamento sério" para "solteiro" e seguiram suas vidas como quem tem muita coisa pra viver ainda pela frente. 

Ela desbloqueou o Instagram de vez e ele, idem. Quase três meses depois, o Instagram dela segue desbloqueado. Os dois começaram a usar a função Stories e cada um acompanha, a uma distância segura que é demarcada pelo término, a vida do outro. Ela começou a postar pequenos vídeos das coisas que via, mais para atualizá-lo sobre sua nova vida do que para jogar na cara dele que ela vivia  bem, obrigada.

Ele começou a postar vídeos com fundo musical das suas recentes descobertas no Spotify, coisa que antes não fazia, pois descobriam as músicas juntos. Mas isso foi antes desses três meses que se passaram, antes das brigas se intensificarem, antes do silêncio que se instalou, como se eles tivessem combinado de abrir o relacionamento e convidar a solidão. Foi em um antes que até parece ter sido em outra vida.

De nada adianta viver de passado, ela pensa com frequência. Mas, mesmo assim, não consegue deixar de clicar no círculo da foto de perfil dele no Instagram, não consegue deixar de acompanhar as descobertas musicais que ele faz. Virou ritual: antes de dormir, ela entra no perfil e vê vídeo a vídeo, sempre tomando cuidado de sair antes de terminar. Não quer que ele saiba que ela esteve ali, mesmo que haja dias em que bate aquela vontade de ver o vídeo até o fim.

8 comentários:

  1. Muito legal o texto 😁👏 parabens

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  2. Adorei o texto, é bem a realidade dos términos de agora. Um continua acompanhando tudo que o outro faz por conta das redes sociais hahaha Bem realista! Amei o texto <3

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  3. Foi bem difícil para mim ler o texto até o fim, pois recentemente passei por isso. É uma pena como a gente se sustenta por um bom tempo com isso. Doloroso mas verdadeiro.

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  4. Adorei seu post!
    Você escreve e consegue se expressar muito bem, mesmo com um tema tão doloroso quanto esse!
    Parabéns!

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  5. Você escreve muito bem. Adorei o texto

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  6. na verdade todo termino demora um tempinho pra gente superar, sempre tem a faze de fuçar a vida do outro, eu encaro como uma etapa. Belo texto. beijos


    Blog Entre Ver e Viver

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  7. Amei o texto, vc escreve muito bem!
    http://my1life2in3books.blogspot.com.br/

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  8. O texto retrata a realidade de alguns casais, gostei muito da forma que você escreve e fiquei totalmente envolvida durante a leitura.

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