Abrir a janela a noite sempre fora o refúgio de Clara. Olhar lá fora e fingir que o mundo era colorido, que os problemas eram apenas provas a se superar, que a cidade era linda refletida nos faróis dos carros acesos funcionava como um anestésico para a vida real.
Durante o dia, a rotina de Clara a consumia, mas, com o tempo, ela descobriu uma maneira de fazer tudo mecanicamente para devanear nos intervalos em que não precisasse pensar em absoluto. E assim lavava, varria e cozinhava enquanto percorria campos verdes lutando artes marciais e bancando a mocinha má que, só de birra, salvava o mundo de salto alto e rouge. Assim ia vivendo.
Às vezes, no entanto, ela precisava despertar e se via respondendo 'Não' enquanto voltava para a realidade e descobria que o que a filha lhe perguntara era se ela, Clara, poderia pegar sua lancheira em cima da geladeira. O passo que deveria dar para consertar tais desligamentos era pausar a fuga da heroína ou adiar a viagem perigosa por dentre árvores densas e pegar a lancheira, colocar um copo d'água e dar à filha ou colocar ração pro cachorro.
Com o tempo, as noites na janela e as escapadelas para seu refúgio durante o dia não mais eram suficientes. Foi em um desses dias que teve seu estalo: as histórias todas já haviam sido contadas, agora só poderiam se repetir. Como suportaria isso?
Naquela noite, Clara encenou sua última peça inédita, uma com um final sem igual. E assim, antes de se deixar cair do 14º andar decidiu que esse detalhe também fazia parte. Não pensou na filha, no cachorro ou no marido. 'As histórias se acabaram', foi seu único pensamento.