sexta-feira, 19 de março de 2010

Um bolo e uma reflexão...

Entrei no ônibus com uma decisão. Seria alguma pessoa presente ali, naquela aglomeração humana, que receberia o meu triste símbolo de despedida. E foi exatamente o que aconteceu. Um homem se ofereceu para segurar meu embrulho e o ganhou de presente. Ele olhou para mim inúmeras vezes, com olhares perdidos; deve ter pensado que eu estava louca. E ele tinha razão.
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Tudo começou com uma indicação. Fui indicada a ir, todos os dias, na mesma hora e no mesmo lugar por quatro semanas seguidas. Era um curso para complementar meu currículo. E essa foi a minha rotina fiel até hoje. Muitas coisas aprendi, não somente coisas relacionadas ao propósito do curso, porque a gente nunca aprende só isso.

Eu devia levar um bolo. De chocolate (que, a propósito, eu 'não gosto muito' - eufemismo para "odeio"). Muitas coisas haviam ali, naquele endereço que eu segui religiosamente naquelas quatro semanas. Eram deliciosas; porém não havia uma faca. Uma faca para cortar um bolo. Um bolo de chocolate. À propósito, um bolo de chocolate que ficou intocado.

A despedida me pegou. Foi além do que eu esperava, o apego àquela realidade que eu sabia que seria momentânea foi grande demais. Sai de lá com o bolo. Mas sai também com vontade de me livrar dele. Eu passara ali, por aquele caminho, exatas 19 vezes, em direção ao ponto de ônibus. Era a vigésima vez. E a última também. Pensei em dar o bolo para alguém na rua, "alguém que precisasse". Ah, você entendeu! Mas não encontrei, não no vigésimo e último dia. O bolo pesava, estava com os braços doloridos. Eram seis quadras. Seis quadras sem encontrar "alguém que precisasse": ah! que ironia...

Cheguei ao ponto e o ônibus não demorou muito, passei pela catraca e, em menos de dois minutos o bolo era do homem que se ofereceu para segurá-lo. Ele, ironicamente, segurou e, provavelmente, a essa hora, já deve ter comido com sua esposa e filhos ou com seus pais, eu não sei disso pois não o conhecia.

Porém sei que, meu olhar estava distante e eu encontrei muitas pessoas que poderiam merecer aquele bolo. Uma moça com aparência de quem tinha andado o dia todo atrás de emprego; um homem que vende doces em ônibus, fechando os olhos com expressão de cansaço; uma família vendendo serviços gerais no farol e muitas outras que você, provavelmente já deve ter visto inúmeras vezes.

Eu precisei entregar a alguém o símbolo de despedida, e entreguei. Posso ter entregado à pessoa errada, mas não saberei porque não conheço nada a respeito do receptor do bolo. Tenho apenas suposições, à deriva, em minha mente. E sei também que se, não só eu, mas também as pessoas que não gostam muito de bolo de chocolate (só pra começar) fizessem isso uma vez a cada quatro semanas, eu não posso afirmar que se acabaria com a fome do mundo (claro que não! Não sou tão tola assim!) ,mas, pelo menos essas pessoas poderiam ter na memória a imagem de uma pessoa, desconhecida, saindo feliz de um ônibus lotado em direção a sua casa com um bolo nas mãos e um sorriso agradecido no olhar.
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É, eu fiquei olhando o homem atravessar a rua...

3 comentários:

  1. Muito bom! é real ou apenas um conto muito bem elaborado?
    Gostei da ideia de entregar o bolo como sinal de despedida... muita criatividade. Mas, gostei principalmente das suposições feitas em relação ao 'receptor' do bolo e dos outros passageiros do ônibus.
    Fiquei curiosa para saber o que o homem fez com o bolo, na verdade, o que falou quando chegou ao destino com aquele bolo em mãos, rs.

    Excelente!

    Beijos

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  2. Gostei muito do jeito como escreve! Bom, confesso que sempre tem pessoas simpáticas que se oferecem pra carregar minha mochila no ônibus e eu fico com vontade de presenteá-las de alguma forma, certa vez o fiz, com um bombom, não com um bolo =P Acho que é bem esse o sentimento que temos ao viver uma despedida, por um momento vivemos aleatoriamente e assim permanecemos, à deriva...

    Beijo!

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  3. Tem selinho novo para você em meu blog.

    Bjs

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