domingo, 15 de abril de 2018

Novas formas de amor

Reprodução/Pexels

Ou aquele que eu queria enviar para todos os amigos do Brasil


Hoje eu acordei e pensei sobre como poderia definir o quão impactante foi ter esses meus novos amigos – Karen, Mari e Tarciso – na minha vida desde que cheguei aqui nessa cidade que sabe ser amor e também sabe ser vilã.

“Melhor squad da vida”, eu pensei, como se tivesse que criar uma legenda para uma foto nossa. Mas a verdade é que eles se tornaram bem mais que isso.

Uma vez, fazendo um trabalho de rádio lá no Brasil com meus melhores amigos (Fred, Carol Abrantes, Carol Lameirão, Laleska e Paulo – Laura não tinha chegado ainda, mas entra com certeza no rol de melhores amigos da vida <3), a gente resolveu fazer um programa sobre términos. A gente se reuniu, discutiu, brigou, fez roteiros, editou, trilhou e tudo que o protocolo pede nessas ocasiões. Foi um daqueles trabalhos que deu um super orgulho de ter feito, só que demorou muito tempo para cair minha ficha de que eu não tinha entendido completamente. Até que um dia, arrumando as caixas da mudança antes de vir pra Portugal, achei um dos roteiros: era do episódio sobre términos amorosos. Eu li e me deparei com a frase “hoje eu vivo outras formas de amor”, de uma das entrevistadas. Naquela hora, minha vida estava uma bagunça e eu me lembro de ter pensado “mano, impossível isso que ela está falando”.

Mas aí a vida foi acontecendo. Quando eu estava bem mal, minha mãe me deu um abraço bem forte e disse pra mim: “filha, isso vai passar”. Eu chorei muito mais e fiquei pensando: “será que essa é uma dessas outras formas de amar?” e tentei seguir vivendo.

Depois foi a vez de fazer as malas e desabafar com meu irmão Robson, que me deu vários conselhos que eu nunca vou conseguir expressar em palavras o quão curadores eles foram pro meu coração machucado. E eu só sabia que, a cada dia, eu entendia mais aquela frase que tinha lido no roteiro e que antes parecia ser tão surreal.

Daí a gente foi pro aeroporto e eu estava com a alma anestesiada. Eu estava tão ansiosa pra chegar lá e despachar a mala que não tinha percebido que não veria toda minha família (meus pais, meus irmãos, a tia Ana, a Bianca) e amigos por seis meses. Eu embarquei com aquele que viria a ser um dos grandes parceiros dessa nova fase da vida, o Tarciso, e que parecia entender o que era aquela sensação de não acreditar que a gente estava mesmo indo pra outro país.

Daí, naturalmente, a Karen e a Mari chegaram nas nossas vidas. A gente se viu com dilemas parecidos e se tornou uma rede de apoio, uma verdadeira família aqui nessa cidade com um inverno longo demais.

Mas apesar de todos eles serem maravilhosos e conseguirem arrancar meus melhores sorrisos, mesmo que muitas vezes sob o forte efeito da sidra, eu ainda ia dormir com aquela falta que eu sentia no coração de todo mundo que deixei no Brasil: da família, dos melhores amigos que fiz na faculdade, dos melhores amigos que me aguentaram no ensino médio (Bruna, Leandro, Fernanda e Carol), das pessoas maravilhosas que conheci e convivi quando fiz estágio no Metro Jornal e da garota que não desistiu de mim mesmo depois de eu ter saído lá da editora (né, Vanuza?). Essa falta avassaladora que é a saudade, essa palavra tão brasileira e que eu nunca pensei que pudesse ser vivida dessa forma tão intensa.

Eu só queria viver de lives pra ver essas pessoas queridas, ouvi-las, conversar com elas. E cada vez eu sentia mais verdade naquelas palavras que antes me pareceram tão insanas: “hoje eu vivo outras formas de amor”.

Parece que meu coração duplicou, triplicou de tamanho e que cada vez tenho mais espaço para colocar pessoas que eu amo. Porque amar é um sentimento tão multifacetado que a gente se surpreende ao vê-lo em ação.

Hoje eu entendo melhor aquela frase que tanto me confundiu e sigo aprendendo a retribuir esse sentimento que eu recebo. Não é fácil. Parece que o coração não segue as leis da física. Eu sei que ele bate aqui com esse trio maravilhoso, mas sei que ele também bate com as minhas pessoas que estão lá no Brasil.

Parece que é tanto amor que esse sentimento precisa sair de mim um pouco pra que o coração tenha espaço pra continuar batendo. E, quando dou por mim, estou chorando pra aliviar a alma e, assim, ter mais espaço para seguir amando. Porque o amor se renova e não se esgota. Parece que ele cresce de novo e de novo, insistentemente, como quando a gente deixa um grão de feijão cair na terra e, poucos dias depois, começa a ver esse mesmo grão se abrindo e folhas verdes saindo dele.

Parece que eu vou morrer de saudade e de tanto chorar, me derretendo de tanto amor. Mas aí eu lembro que a vida passa e que, daqui a poucos meses, vou estar chorando por não poder mais chegar na casa da Mari e da Karen pra bater papo, fazer nossos trabalhos e rir de vídeos de pessoas sob efeito da hipnose. E isso só me faz querer viver ainda mais o momento e, pra isso, eu me acalmo dizendo: “tá tudo bem, você logo vai voltar e ver sua família e seus amigos do Brasil. Aproveita cada segundo com esses novos amigos que a vida colocou no seu caminho”.

Agora eu sei: é uma verdade universalmente conhecida que uma pessoa, em posse de um coração, é destinada a viver sempre novas formas de amor.

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